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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Barbosa está perdoado, o Brasil não

Filha do goleiro Barbosa desabafa e se sente vingada pelo ostracismo sofrido pelo pai
Quando o Brasil perdeu o Mundial para o Uruguai em 1950, em pleno estádio do Maracanã, uma nação incrédula, traumatizada e sedenta de um bode expiatório apontou o dedo a Moacir Barbosa, o guarda-redes da selecção. Até à sua morte, em Abril de 2000, carregou o fardo da culpa, mais do que qualquer outro dos antigos companheiros de equipa. A sua redenção chegou a 8 de Julho de 2014, data em que uma tragédia ainda maior cicatrizou a ferida aberta há 64 anos pelo denominado “Maracanaço”. O Brasil acordou esta quarta-feira ainda atordoado com a humilhação que sofreu frente à Alemanha. Uma inimaginável goleada por 7-1 que demorará algum tempo a ser racionalizada pelo orgulhoso “país do futebol”.
O dia amanheceu no Rio de Janeiro, esta quarta-feira, com uma estranha normalidade, depois das emoções extremas da véspera. As conversas recaiam invariavelmente no jogo do Mineirão, em Belo Horizonte, mas o sentimento não era propriamente de angústia e dor. Quanto muito não se escondia uma timidez envergonhada quando o interlocutor era estrangeiro. O movimento era o habitual durante a semana e só as capas dos jornais nas bancas davam dimensão histórica e substantivo ao drama da selecção. “Vergonha”, “vexame”, “humilhação” estampavam as primeiras páginas em letras garrafais. “Agora vamos ver se o país acorda finalmente para os problemas da educação e da saúde”, ouvia-se aqui e ali.

“Esta derrota foi tão sonora, tão barulhenta que nós ainda não estamos raciocinando bem”, confessou ao PÚBLICO João Máximo, escritor e jornalista brasileiro, de 79 anos, que estava entre os 200 mil adeptos que assistiram à partida disputada com o Uruguai no mítico estádio carioca: “A derrota de 1950 foi quase honrosa neste cenário de agora. Perder uma partida final, por 2-1, para um adversário com um futebol de alto nível foi normalíssimo. Só não foi normal no nosso coração, na nossa maneira de sentir as coisas. Achávamos que o nosso time era invencível. Agora, ontem… eu ainda não consegui racionalizar o que aconteceu. Eu sei o que aconteceu. Houve uma selecção nitidamente superior à nossa, mas ainda não consegui botar isso dentro de uma certa lógica, porque foi um resultado brutal.”
A relação do Brasil com o futebol e a sua afectividade com a equipa nacional também mudou muito nos últimos 64 anos. “O jogo do Maracanã em 1950 foi mais traumático porque o país era outro, os torcedores eram outros, o futebol era outro e, principalmente, a maneira do brasileiro encarar o futebol era outra”, defendeu João Máximo: “Na época, era mais intensa a ligação entre o futebol e a pátria. Quem estava dentro de campo não era apenas uma selecção nacional, era o próprio Brasil. Um país que, na ocasião, tinha muito pouco do que se orgulhar, com problemas de todos os géneros. Hoje isso é passado, as coisas já não são vistas desta maneira.”
A intimidade entre adeptos e jogadores é igualmente distinta. Se em 1950, praticamente todos os elementos da selecção alinhavam no futebol brasileiro e eram bem conhecidos do torcedor, agora existe uma outra distância. “Ninguém sabe bem de onde veio esse Hulk”, criticava ontem ao PÚBLICO um taxista, referindo-se a um dos atacantes titulares na partida do Mineirão, que abandonou muito novo o país para jogar no estrangeiro, nomeadamente no FC Porto, em Portugal. Não é de todo um caso isolado. Da equipa escalada pelo seleccionador Luiz Felipe Scolari para defrontar a Alemanha, apenas o ponta-de-lança Fred joga no Brasil. “Se tivessem de continuar a jogar aqui mesmo, passavam vergonha, assim nem devem estar preocupados com o vexame. Têm salários milionários lá na Europa e não querem nem saber do resto”, prosseguiu, inconformado, o motorista. Mas esta ideia de alguma falta de entrega e dedicação à camisola “canarinha” por parte dos jogadores que a vestem actualmente é partilhada por muitos dos seus compatriotas.
A realidade de Barbosa foi bem diferente. Teve de enfrentar no seu país os olhares de censura durante décadas. “No Brasil, a maior pena é de 30 anos, por homicídio. Eu já cumpri mais de 40 anos de punição por um erro que não cometi”, lamentou o famigerado ex-guarda-redes numa entrevista. Teria de cumprir 64, mas já não está cá para receber a amnistia. “O Barbosa está perdoado, não teria mais problema nenhum. A falha dele nem foi assim tão gritante, mas o Brasil precisava de um culpado. Eu conheci-o pessoalmente e sei que sofreu com isso até ao final da vida”, contou João Máximo.
Desta vez, o cronista acredita que não haverá bodes expiatórios, que não existe um culpado isolado perante a extensão do “desastre total”. Na rua, os nomes de Fred, “o atacante invisível”, e Scolari, “teimoso ultrapassado”, são os mais visados pelas críticas, mas nada nas proporções que atingiram o antigo “goleiro”. Ao seleccionador e restante equipa técnica não se perdoam, acima de tudo, as promessas optimistas de conquista do título feitas nas vésperas do arranque do torneio. Agora, todos clamam por mudanças radicais em toda a estrutura do futebol brasileiro, a começar na captação de talentos nas camadas base. A Alemanha é o exemplo a seguir.

(no Rio de Janeiro)
Protagonistas do “Maracanaço” foram redimidos por uma tragédia ainda maior da selecção brasileira. O país procura racionalizar a humilhação sofrida frente à Alemanha e quer mudanças profundas em toda a estrutura do seu futebol

Filha do goleiro Barbosa desabafa e se sente vingada pelo ostracismo sofrido pelo pai

por Edimário Duplat

Após a humilhante goleada sofrida frente a Alemanha por 7 a 1, a filha de um dos jogadores mais criticados pelo vice-campeonato da Copa de 1950 desabafou e não poupou críticas para aqueles que desprezaram a carreira do pai no Mundial do Brasil jogado no século passado. Tereza Borba, filha do goleiro Barbosa, afirmou que mesmo triste por ser brasileira, está feliz por honra a história de seu pai no futebol nacional.
 "Pra mim está ótimo. Eu já sabia. E o Barbosa foi vice-campeão. Ele tinha orgulho de ser vice, entendeu? E hoje tomamos chocolate, que não foi da Suíça. Estou triste por ser brasileira, mas feliz por honra ao Barbosa. Ele deve estar feliz agora" afirmou em entrevista ao Uol Esporte. Apesar do desabafo acalorado, Tereza confessou que torceu muito pela seleção na Copa, mas não teria como valorizar a campanha feita por Barbosa em 1950 depois de uma humilhante derrota dentro de casa por 7 a 1 nas semifinais. "Como brasileira, torci muito pelo Brasil. Ele preferia que o Brasil tivesse ganhado, infelizmente. Barbosa tinha orgulho de ser vice. E agora? O Barbosa tem que ser reverenciado mais do que nunca. Ele foi vice e nem vice eles foram", falou.
 Falecido em 2000, com 79 anos, Barbosa foi eternizado pela imprensa por uma falha no gol do título do Uruguai no Maracanã. Entretanto, o goleiro conquistou a Copa América de 1949 e a Copa Roca (atual Superclássico das Américas) em 1945. Em clubes foi hexacampeão carioca e Sul-Americano pelo Vasco, título que mais tarde foi reconhecido pela Conmebol como uma conquista continental. 

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