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quinta-feira, 4 de abril de 2013

A história das Religiões (Mais um trabalho de pesquisa da equipe Campinarte dirigida por Huayrãn Ribeiro que será apresentado em capítulos

Religião — como começou?
(Parte 1)

A HISTÓRIA da religião é tão antiga como a história do próprio homem. É isto o que nos dizem os arqueólogos e os antropólogos. Mesmo entre as civilizações mais “primitivas”, querendo-se com isso dizer as civilizações não desenvolvidas, há evidências de algum tipo de adoração. De fato, The New Encyclopedia Britannica (Nova Enciclopédia Britânica) diz que “até onde os peritos conseguiram descobrir, jamais existiu um povo, em qualquer parte, em qualquer tempo, que não fosse de algum modo religioso”.
Além de sua antiguidade, há também grande variedade na religião. Os caçadores de cabeças nas selvas do Bornéu, os esquimós no gelado Ártico, os nômades no deserto do Saara, os habitantes das grandes metrópoles do mundo — todo povo e toda nação na terra têm seu deus ou deuses e seu modo próprio de adoração. A diversidade de religião é realmente atordoante.
Logicamente, surgem perguntas. De onde se originaram todas essas religiões? Visto que existem notáveis diferenças entre elas, bem como similaridades, será que elas começaram independentemente, ou poderiam ter-se desenvolvido de uma única fonte? Deveras, podemos perguntar: Por que surgiu a religião? E como? As respostas a estas perguntas são de importância vital para todos os que se interessam em encontrar a verdade a respeito de religião e crenças religiosas.

A Questão da Origem
Quando se trata da questão da origem, pessoas de diferentes religiões pensam em nomes tais como Maomé, o Buda, Confúcio, e Jesus. Em quase toda religião existe uma figura central a quem se dá o crédito de ter estabelecido a ‘verdadeira fé’. Alguns destes eram reformadores iconoclastas. Outros eram filósofos moralísticos. Ainda outros eram altruístas heróis populares. Muitos deles deixaram escritos e dizeres que formaram a base de uma nova religião. Com o tempo, aquilo que disseram e fizeram foi ampliado, floreado, e se lhe conferiu uma aura mística. Alguns destes líderes foram até mesmo deificados.
Embora estes indivíduos sejam tidos como fundadores das principais religiões conhecidas, deve-se dizer que eles realmente não deram origem à religião. Na maioria dos casos, seus ensinos nasceram de conceitos religiosos já existentes, ainda que a maioria destes fundadores afirmasse que tiveram como fonte a inspiração divina. Ou, então, eles mudaram e alteraram sistemas religiosos existentes que, de uma ou de outra maneira, se haviam tornado insatisfatórios.
Por exemplo, segundo o que diz a história, o Buda havia sido um príncipe que se estarrecia diante do sofrimento e das condições deploráveis que via ao seu redor, numa sociedade dominada pelo hinduísmo. O budismo foi o resultado de sua busca de uma solução para os aflitivos problemas da vida. Similarmente, Maomé sentia-se muito consternado diante da idolatria e da imoralidade que observava nas práticas religiosas ao seu redor. Mais tarde afirmou ter recebido revelações especiais de Deus, que formaram o Qur’ān (Alcorão) e se tornaram a base de um novo movimento religioso, o Islã. O protestantismo nasceu do catolicismo, em resultado da Reforma que começou no início do século 16, quando Martinho Lutero protestou contra a venda de indulgências pela Igreja Católica naquele tempo.
Assim, no que tange às religiões hoje existentes, não há falta de informações sobre sua origem e desenvolvimento, seus fundadores, seus escritos sagrados, e assim por diante. Mas, que dizer das religiões que existiram antes delas? E daquelas até mesmo anteriores a essas? Se recuarmos o suficiente na história, mais cedo ou mais tarde nos confrontaremos com a pergunta: Como começou a religião? Obviamente, para encontrarmos a resposta a esta pergunta, temos de olhar além dos limites de cada religião individualmente.

Muitas Teorias
O estudo da origem e do desenvolvimento da religião é um campo relativamente novo. Por séculos, as pessoas de modo geral aceitavam as tradições religiosas que herdaram, e segundo as quais foram criadas. A maioria se sentia satisfeita com as explicações que lhes eram legadas por seus antepassados, achando que a sua religião era a verdade. Raramente havia razão para questionar algo, tampouco a necessidade de investigar como, quando ou por que as coisas começaram. De fato, por séculos, com limitados meios de locomoção e comunicação, poucas pessoas sequer sabiam da existência de outros sistemas religiosos.
Durante o século 19, porém, o quadro começou a mudar. A teoria da evolução empolgava os círculos intelectuais. Isto, junto com o advento da inquirição científica, levou muitos a questionar os sistemas estabelecidos, incluindo a religião. Reconhecendo as limitações quanto a procurar pistas dentro da religião existente, alguns estudiosos voltaram-se para os vestígios de primitivas civilizações, ou para cantos remotos do mundo onde as pessoas ainda viviam em sociedades primitivas. Tentaram aplicar a tais os métodos da psicologia, sociologia, antropologia, e assim por diante, esperando descobrir uma pista quanto a como a religião começou, e por quê.
Com que resultado? Subitamente, irromperam em cena muitas teorias — aparentemente tantas quanto o número de investigadores — cada investigador contrariando o outro, e cada qual se empenhando em sobrepujar o outro em ousadia e originalidade. Alguns destes pesquisadores chegaram a conclusões importantes; o trabalho de outros simplesmente caiu no esquecimento. É tanto instrutivo como esclarecedor obtermos uma breve visão dos resultados dessas pesquisas. Isto nos ajudará a entendermos melhor as atitudes religiosas das pessoas com as quais entramos em contato.
Uma teoria, em geral chamada de animismo, foi proposta pelo antropólogo inglês Edward Tylor (1832-1917). Ele sugeriu que experiências tais como sonhos, visões, alucinações e o estado inerte de cadáveres levaram os povos primitivos a concluir que o corpo é habitado por uma alma (latim: anima). Segundo esta teoria, visto que eram freqüentes os sonhos com entes queridos falecidos, presumia-se que uma alma continuava a viver após a morte, que deixava o corpo e morava em árvores, rochas, rios, e assim por diante. Por fim, os mortos e os objetos nos quais se dizia que as almas habitavam vieram a ser adorados como deuses. E assim, disse Tylor, nasceu a religião.
Outro antropólogo inglês, R. R. Marett (1866-1943) propôs um aprimoramento do animismo, que chamou de animatismo. Depois de estudar as crenças dos melanésios das ilhas do Pacífico, e dos nativos da África e da América, Marett concluiu que, em vez de terem a noção de uma alma pessoal, os povos primitivos criam que existia uma força impessoal ou poder sobrenatural que dava vida a todas as coisas; tal crença provocou sentimentos de reverência e temor no homem, o que se tornou a base para sua primitiva religião. Para Marett, a religião era principalmente a reação emocional do homem diante do desconhecido. Sua declaração preferida era a de que religião “é menos uma questão de razão do que de danças ritualísticas”.
Em 1890, um especialista escocês em folclore antigo, James Frazer (1854-1941), publicou o influente livro The Golden Bough (O Ramo Dourado), no qual argumenta que a religião surgiu da magia. Segundo Frazer, o homem tentou primeiro controlar a sua própria vida e o seu meio por imitar o que via acontecer na natureza. Por exemplo, ele pensava que poderia provocar chuva por borrifar água no solo junto com trovejantes batidas de tambor, ou que poderia causar dano a seu inimigo por espetar alfinetes numa efígie. Isto levou ao uso de ritos, feitiços e objetos mágicos em muitos aspectos da vida. Quando estes não funcionaram como se esperava, o homem passou então a tentar aplacar os poderes sobrenaturais e a suplicar a ajuda deles, em vez de tentar controlá-los. Os rituais e magias viraram sacrifícios e orações e, assim, começou a religião. Segundo Frazer, religião é “a propiciação ou conciliação de poderes superiores ao homem”.
Até mesmo o famoso psicanalista austríaco Sigmund Freud (1856-1939), em seu livro Totem and Taboo (Totem e Tabu), tentou explicar a origem da religião. Fiel à sua profissão, Freud explicou que a mais primitiva religião surgiu do que chamou de neurose ligada à figura do pai. Teorizou que, como se dava no caso de cavalos e gado selvagens, na sociedade primitiva o pai dominava o clã. Os filhos homens, que tanto odiavam como admiravam o pai, rebelavam-se e matavam o pai. Para adquirir o poder do pai, afirmava Freud, ‘estes selvagens canibalistas comiam a sua vítima’. Mais tarde, por causa do remorso, eles inventaram ritos e cerimônias para reparar a sua ação. Segundo a teoria de Freud, a figura do pai virou Deus, os ritos e as cerimônias passaram a ser a mais primitiva religião, e comer o pai assassinado passou a ser a comunhão, tradição praticada em muitas religiões.
Poderiam ser citadas numerosas outras teorias que são tentativas de explicar a origem da religião. A maioria delas, porém, foi esquecida, e nenhuma realmente se destacou como sendo mais crível e aceitável do que as outras. Por quê? Simplesmente porque nunca existiu uma evidência histórica ou prova de que tais teorias fossem verídicas. Eram puramente produtos da imaginação ou conjectura de algum investigador, que logo eram substituídos pela conjectura seguinte.

Um Fundamento Falho
Depois de anos se debatendo com o assunto, muitos agora chegaram à conclusão de que é muito improvável que se encontre uma solução definitiva para a pergunta sobre como a religião começou. Em primeiro lugar, isto se dá porque os ossos e outros vestígios de povos antigos não nos dizem o que essas pessoas pensavam, o que temiam, ou por que adoravam. Quaisquer conclusões tiradas à base dessas relíquias são, quando muito, especulações eruditas. Ademais, as práticas religiosas dos atuais chamados povos primitivos, tais como os aborígines australianos, não são necessariamente um confiável padrão para avaliar o que as pessoas dos tempos antigos faziam ou pensavam. Ninguém sabe ao certo se ou como a cultura deles mudou ao longo dos séculos.
Por causa de todas as incertezas, o livro Religiões do Mundo — da História Antiga ao Presente (em inglês) conclui que “os modernos historiadores de religião sabem que é impossível chegar às origens da religião”. A respeito dos empenhos de historiadores, porém, o livro faz a seguinte observação: “No passado, a preocupação de demasiado número de teóricos não era simplesmente descrever ou explicar a religião, mas sim, invalidá-la, achando que, se ficasse demonstrado que as primitivas formas se baseavam em ilusões, então, as religiões posteriores e mais desenvolvidas poderiam ser minadas.”
Neste último comentário encontra-se a chave quanto a por que vários investigadores “científicos” da origem da religião não apareceram com alguma explicação sustentável. Diz-nos a lógica que uma conclusão correta só se pode deduzir de uma premissa correta. Caso se inicie com uma premissa falha, é improvável que se chegue a uma conclusão sólida. O repetido fracasso dos investigadores “científicos” de chegar a uma explicação razoável lança sérias dúvidas sobre a premissa na qual eles baseiam os seus conceitos. Por seguirem seu conceito preconcebido, em seus empenhos de ‘invalidar a religião’, eles têm tentado invalidar a Deus.
A situação é comparável às muitas maneiras pelas quais os astrônomos antes do século 16 tentavam explicar o movimento dos planetas. Havia muitas teorias, mas nenhuma delas era realmente satisfatória. Por quê? Porque se baseavam na suposição de que a terra era o centro do universo, ao redor do qual as estrelas e os planetas giravam. Não se fez real progresso até que os cientistas — e a Igreja Católica — estivessem dispostos a aceitar o fato de que a terra não é o centro do universo, mas sim que gira em volta do sol, o centro do sistema solar. O fracasso das muitas teorias em explicar os fatos levou pessoas de mentalidade aberta, não a tentarem aventar novas teorias, mas sim a reexaminar a premissa de suas investigações. E isto levou ao êxito.
Pode-se aplicar o mesmo princípio à investigação da origem da religião. Por causa do aumento do ateísmo e da ampla aceitação da teoria da evolução, muitos pressupõem que Deus não existe. Baseados nessa suposição, eles acham que a explicação para a existência da religião deve ser encontrada no próprio homem — em seus processos de raciocínio, suas necessidades, seus temores, suas “neuroses”. Voltaire declarou: “Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo.” Assim, eles argumentam que o homem inventou a Deus.
Visto que as muitas teorias fracassaram em prover uma resposta realmente satisfatória, não é agora tempo de reexaminar a premissa sobre a qual estas investigações se basearam? Em vez de infrutiferamente insistir no mesmo procedimento, não seria lógico recorrer a outra parte em busca da resposta? Se nos dispusermos a ter uma mentalidade aberta, concordaremos que fazer isso é tanto razoável como científico. E temos um exemplo bem ilustrativo, que nos ajuda a ver a lógica por trás deste proceder.

Uma Inquirição Antiga
No primeiro século de nossa Era Comum, Atenas, na Grécia, era um proeminente centro de aprendizado. Entre os atenienses, porém, havia diversas escolas de pensamento, tais como os epicureus e os estóicos, cada qual com seus próprios conceitos a respeito dos deuses. Com base nestes vários conceitos, veneravam-se muitas deidades, e desenvolveram-se diferentes maneiras de adoração. Em resultado, a cidade estava repleta de ídolos e de templos de fabricação humana. — Atos 17:16.
Por volta do ano 50 EC, o apóstolo cristão Paulo visitou Atenas e apresentou aos atenienses um ponto de vista totalmente diferente. Ele lhes disse: “O Deus que fez o mundo e todas as coisas nele, sendo, como Este é, Senhor do céu e da terra, não mora em templos feitos por mãos, nem é assistido por mãos humanas, como se necessitasse de alguma coisa, porque ele mesmo dá a todos vida, e fôlego, e todas as coisas.” — Atos 17:24, 25.
Em outras palavras, Paulo dizia aos atenienses que o verdadeiro Deus, que “fez o mundo e todas as coisas nele”, não é produto da imaginação do homem, tampouco é ele servido através de meios que o homem possa conceber. A religião verdadeira não é mero esforço unilateral da parte do homem no sentido de tentar suprir uma determinada necessidade psicológica ou debelar um certo temor. Em vez disso, visto que o verdadeiro Deus é o Criador, que deu ao homem a capacidade de raciocínio e a faculdade da razão, é somente lógico que Ele provesse um meio de o homem vir a entrar numa relação satisfatória com ele. Isto, segundo Paulo, foi exatamente o que Deus fez. “Ele fez de um só homem toda nação dos homens, para morarem sobre a superfície inteira da terra, . . . para buscarem a Deus, se tateassem por ele e realmente o achassem, embora, de fato, não esteja longe de cada um de nós.” — Atos 17:26, 27.
Note o ponto-chave de Paulo: Deus “fez de um só homem toda nação dos homens”. Embora existam hoje muitas ‘nações de homens’ em todos os cantos da terra, os cientistas sabem que, deveras, toda a humanidade descende de um mesmo tronco. Este conceito é de grande importância, pois, quando falamos de todos os seres humanos serem de um mesmo tronco, isso significa muito mais do que serem eles apenas biológica e geneticamente aparentados. Estão aparentados também em outros aspectos.
Note, por exemplo, o que o livro Story of the World’s Worship (História da Adoração do Mundo) diz a respeito dos idiomas da humanidade. “Aqueles que estudaram os idiomas do mundo e os compararam entre si, têm algo a dizer, que é o seguinte: Todos os idiomas podem ser agrupados em famílias ou classes de linguagem, e vê-se que todas estas famílias iniciaram de uma fonte única.” Em outras palavras, os idiomas do mundo não se originaram separada e independentemente, como os evolucionistas nos fariam crer. Eles teorizam que os homens que habitavam cavernas na África, na Europa e na Ásia começaram com grunhidos e rosnados e, assim, acabaram desenvolvendo as suas próprias linguagens. Mas, não foi assim. A evidência é que estas “iniciaram de uma fonte única”.
Se isto é assim em algo tão pessoal e tão singularmente humano como a linguagem, então, não seria razoável pensar que os conceitos do homem a respeito de Deus e de religião também devem ter-se iniciado de uma única fonte? Afinal, religião se relaciona com raciocínio, e o raciocínio se relaciona com a habilidade do homem de usar a linguagem. O caso não é que todas as religiões realmente tenham surgido de uma única religião, mas sim que as idéias e os conceitos devem ser atribuíveis a alguma fonte ou reservatório único de idéias religiosas. Existe evidência para apoiar isso? E se, realmente, as religiões da humanidade de fato se originaram de uma mesma fonte, qual seria esta? Como podemos saber?
Diferentes, Porém Similares
Podemos chegar à resposta usando o mesmo método que os peritos em lingüística usaram na obtenção de suas respostas sobre a origem da linguagem. Por comparar e notar as suas similaridades, o etimólogo pode rastrear as várias línguas até a sua origem. Similarmente, por comparar as religiões, podemos examinar as suas doutrinas, lendas, rituais, cerimônias, instituições, e assim por diante, e verificar se existe algum veio básico de identidade comum e, se existir, ao que este veio nos conduz.
Superficialmente, as muitas religiões atuais parecem muito diferentes umas das outras. Contudo, se as despojarmos das coisas que são meros floreios e adições posteriores, ou se removermos aquelas distinções que são o resultado de clima, língua, condições peculiares de sua terra nativa, e outros fatores, é surpreendente quão similares a maioria delas revela ser.
Por exemplo, a maioria das pessoas acharia que dificilmente poderia haver duas religiões mais diferentes uma da outra do que a Igreja Católica Romana, do Ocidente, e o budismo, do Oriente. Contudo, o que constatamos quando colocamos de lado as diferenças que poderiam ser atribuídas à linguagem e à cultura? Se formos objetivos, teremos de admitir que as duas têm muita coisa em comum. Tanto o catolicismo como o budismo estão impregnados de rituais e cerimônias. Estes incluem o uso de velas, incenso, água benta, rosário, imagens de santos, cantos e livros de oração, até mesmo o sinal da cruz. Ambas as religiões mantêm instituições de monges e freiras e se destacam pelo celibato de sacerdotes, indumentárias especiais, dias santos, comidas especiais. Esta lista de modo algum é exaustiva, mas serve para ilustrar o ponto. A pergunta é: Por que duas religiões que parecem ser tão diferentes têm tantas coisas em comum?
O mesmo resultado esclarecedor que se obteve da comparação dessas duas religiões poderá ser obtido duma comparação entre outras religiões. Ao fazermos isso, descobrimos que certos ensinamentos e crenças são quase universais entre elas. A maioria de nós conhece doutrinas tais como a imortalidade da alma humana, a recompensa celestial para todos os bons, o tormento eterno para os perversos num mundo subterrâneo, o purgatório, um deus trino ou uma divindade de muitos deuses, e uma deusa mãe-de-deus ou rainha do céu. Além destas, porém, há muitas lendas e mitos igualmente comuns. Por exemplo, há lendas a respeito da perda da graça divina que o homem sofreu por causa de sua tentativa ilícita de conseguir a imortalidade, a necessidade de oferecer sacrifícios para expiar pecados, a busca de uma árvore da vida ou fonte da juventude, deuses e semideuses que viveram entre os homens e produziram uma prole sobre-humana, e um dilúvio catastrófico que devastou praticamente toda a humanidade.
O que podemos concluir de tudo isso? Notamos que aqueles que criam nesses mitos e lendas viviam geograficamente longe uns dos outros. A sua cultura e suas tradições eram diferentes e distintas. Os seus costumes sociais não tinham relação entre si. Não obstante, no que concerne às suas religiões, eles criam em idéias tão similares. Embora nem todos esses povos cressem em todas as coisas mencionadas, todos criam em algumas delas. A questão óbvia é: Por quê? É como se existisse um reservatório comum do qual toda religião retirou as suas crenças básicas, algumas mais, outras menos. Com o passar do tempo, esses conceitos básicos foram floreados e modificados, e outros ensinamentos se desenvolveram deles. Mas, o contorno básico é inconfundível.
Logicamente, a similaridade nos conceitos básicos das muitas religiões do mundo é uma forte evidência de que elas não começaram cada qual a seu próprio modo separado e independente. Ao contrário, se recuarmos o suficiente, veremos que seus conceitos devem ter tido uma origem comum. Que origem foi esta?

Uma Primitiva Era de Ouro
Curiosamente, entre as lendas comuns a muitas religiões há uma que diz que a humanidade começou numa era de ouro na qual o homem era inculpe, vivia feliz e pacificamente em íntima comunhão com Deus, e estava isento da doença e da morte. Embora os detalhes talvez difiram, a mesma idéia de um paraíso perfeito que outrora existia se encontra nos escritos e nas lendas de muitas religiões.
O Avesta, o livro sagrado da antiga religião persa zoroastriana, fala do “belo Yima, o bom pastor”, que foi o primeiro mortal com quem Auramazda (o criador) conversou. Ele recebeu instruções de Auramazda “para nutrir, governar e vigiar meu mundo”. Para isso, devia construir “uma Vara”, uma morada subterrânea, para todas as criaturas viventes. Nela não havia “nem despotismo nem ruindade de espírito, nem estupidez nem violência, nem pobreza nem engano, nem mesquinhez nem deformidade, nem dentes enormes nem corpos além do tamanho normal. Os habitantes não sofriam aviltação da parte do espírito mau. Moravam entre árvores odoríficas e pilares dourados; eram os maiores, os melhores e os mais belos da terra; eram uma raça alta e bela.”

Religião — como começou? (Parte 2) Hinduísmo — uma busca de libertação

“Na sociedade hindu, é costume religioso, como primeira coisa a fazer de manhã, banhar-se num rio vizinho, ou em casa, se não houver rio ou riacho nas imediações. As pessoas crêem que isso as santifique. Daí, sem ainda se terem alimentado, vão ao templo local e fazem oferendas de flores e alimentos ao deus local. Alguns lavam o ídolo e decoram-no com pó vermelho e amarelo.
“Quase toda casa tem um canto, ou mesmo um cômodo, para a adoração do deus preferido da família. Um deus popular em algumas localidades é Ganesa, o deus-elefante. As pessoas oram a ele em especial por boa sorte, pois ele é conhecido como removedor de obstáculos. Em outros lugares, Críxena, Rama, Xiva, Durga, ou alguma outra deidade talvez tenha prioridade na devoção.” — Tara C., Katmandu, Nepal.
O QUE é hinduísmo? Trata-se apenas da noção ocidental simplista de venerar animais, banhar-se no Ganges e estar dividido em castas? Ou há algo mais envolvido? A resposta: Há muito mais envolvido. O hinduísmo é uma maneira diferente de entender a vida, para a qual os valores ocidentais são totalmente estranhos. Os ocidentais tendem a ver a vida como linha cronológica de eventos na história. Os hindus vêem a vida como ciclo auto-repetitivo no qual a história humana pouco importa.
Não é fácil definir o hinduísmo, pois não tem credo definido, hierarquia sacerdotal nem órgão governante. Mas não deixa de ter suamis (mestres) e gurus (guias espirituais). Numa definição ampla do hinduísmo, certo livro de história diz que é “o inteiro complexo de crenças e instituições que surgiram desde o tempo em que seus antigos (e mais sagrados) escritos, os Vedas, foram compostos, até agora”. Outro diz: “Pode-se dizer que o hinduísmo é a devoção ou a adoração dos deuses Vixenu, ou Xiva [Siva], ou da deusa Sacti, ou das encarnações, dos aspectos, dos consortes ou da progênie deles.” Isto vale para incluir os cultos de Rama e Críxena (encarnações de Vixenu), Durga, Escanda e Ganesa (respectivamente esposa e filhos de Xiva). Afirma-se que o hinduísmo tem 330 milhões de deuses, não obstante, diz-se que o hinduísmo não é politeísta. Como é isso possível?
O escritor indiano A. Parthasarathy explica: “Os hindus não são politeístas. O hinduísmo fala de um Deus uno . . . Os diferentes deuses e deusas do panteão hindu são mera representação dos poderes e das funções do único Deus supremo no mundo manifestado.”
Os hindus não raro referem-se à sua fé como sanatana darma, que significa lei ou ordem eternas. Hinduísmo é realmente um termo vago que descreve uma hoste de religiões e seitas (sampradaias) que se desenvolveram e floresceram no decorrer dos milênios sob a sombra da complexa mitologia hindu antiga. Essa mitologia é tão intricada que a Nova Enciclopédia Larousse de Mitologia (em inglês) diz: “A mitologia indiana é uma inextricável selva de luxuriante vegetação. Entrando nela, perde-se a luz do dia e todo senso claro de direção.” Não obstante, este capítulo abordará alguns dos aspectos e ensinos dessa fé.
Antigas Raízes do Hinduísmo

Embora o hinduísmo talvez não seja tão difundido como algumas outras religiões principais, não obstante, por volta de 1990, gozava da lealdade de uns 700 milhões de seguidores, ou cerca de 1 em 8 (13%) da população do mundo. Contudo, a maioria destes encontra-se na Índia. Assim, é lógico perguntar: Como e por que o hinduísmo ficou concentrado na Índia?
Alguns historiadores dizem que as raízes do hinduísmo remontam a mais de 3.500 anos, quando uma onda de migração trouxe do noroeste para o vale do Indo um povo ariano de pele clara, agora localizado principalmente no Paquistão e na Índia. De lá eles se espalharam até as planícies do rio Ganges e por toda a Índia. Alguns estudiosos dizem que os conceitos religiosos desses migrantes baseavam-se em antigos ensinos iranianos e babilônicos. Um traço comum a muitas culturas, e também encontrado no hinduísmo, é a lenda sobre um dilúvio.
Mas, que tipo de religião se praticava no vale do Indo antes da chegada dos arianos? Um arqueólogo, Sir John Marshall, fala da “‘Grande Deusa-Mãe’, sendo às vezes representada por estatuetas de figuras femininas grávidas, a maioria nuas, com gargantilha alta e ornato na cabeça. . . . Há também o ‘Deus Macho’, ‘logo identificável como protótipo do histórico Xiva’, sentado com as plantas dos pés tocando uma na outra (uma postura ioga), itifálico (lembrando o culto linga [do falo]), cercado de animais (retratando o epíteto de Xiva, ‘Senhor dos Animais’). Há muitas figuras de pedra do falo e da vulva, . . . que apontam para o culto do linga e da ioni de Xiva e sua consorte”. (Religiões do Mundo — Da História Antiga ao Presente, em inglês) Até hoje Xiva é reverenciado como deus da fertilidade, o deus do falo, ou linga. O touro Nandi o carrega.
O hinduísta Swami Sankarananda discorda da interpretação de Marshall, dizendo que originalmente as pedras veneradas, algumas conhecidas como Xivalinga, eram símbolos “do fogo do céu ou do sol e o fogo do sol, os raios”. (A Cultura Rigvédica do Indo Pré-histórico, em inglês) Ele arrazoa que “o culto do sexo . . . não se originou como culto religioso. É um subproduto. Uma degeneração do original. São as pessoas que rebaixam o ideal, elevado demais para sua compreensão, a seus próprios níveis”. Como contra-argumento à crítica ocidental ao hinduísmo, ele diz que, à base da veneração cristã da cruz, um símbolo fálico pagão, “os cristãos . . . são os devotos de um culto do sexo”.
Com o tempo, as crenças, os mitos e as lendas da Índia foram assentados por escrito, e formam hoje os escritos sagrados do hinduísmo. Embora tais obras sacras sejam bem abrangentes, elas não tentam propor uma unificada doutrina hindu.
Escritos Sagrados do Hinduísmo
Os escritos mais antigos são os Vedas, uma coletânea de orações e hinos conhecidos como Rig-Veda, Sama-Veda, Iajur-Veda e Atarva-Veda. Foram compostos durante vários séculos e completados por volta de 900 AEC. Os Vedas foram mais tarde suplementados por outros escritos, incluindo os Brâmanas e os Upanichades.
Os Brâmanas especificam como realizar os ritos e sacrifícios, tanto domésticos como públicos, e dão muitos detalhes sobre seus profundos significados. Foram escritos a partir de cerca de 300 AEC ou mais tarde. Os Upanichades (literalmente: “assentos perto dum mestre”), também conhecidos como Vedanta e escritos por volta de 600-300 AEC, são tratados que delineiam a razão de todo o pensamento e ação, segundo a filosofia hindu. As doutrinas da samsara (transmigração da alma) e do carma (a crença de que as ações de uma existência anterior são a causa do atual estado da pessoa na vida) foram esboçadas nesses escritos.
Outro conjunto de escritos são os Puranas, ou longas histórias alegóricas contendo muitos mitos hindus sobre deuses e deusas, bem como sobre heróis hindus. Essa extensa biblioteca hindu inclui também as epopéias de Ramaiana e Maa-barata. A primeira é a história do “Senhor Rama . . . o mais glorioso de todos os personagens encontrados em literatura escritural”, segundo A. Parthasarathy. O Ramaiana é um dos mais populares escritos para os hindus, datado de aproximadamente o quarto século AEC. É a história do herói Rama, ou Ramachandra, tido pelos hindus como filho, irmão e marido exemplar. É considerado o sétimo avatar (encarnação) de Vixenu, e seu nome não raro é invocado como saudação.
Segundo Bhaktivedanta Swami Prabhupāda, fundador da Sociedade Internacional para Conscientização Críxena, “Bagavad-gītā [parte do Maa-barata] é a suprema instrução de moralidade. As instruções do Bagavad-gītā constituem o supremo processo de religião e o supremo processo de moralidade. . . . A última instrução do Gītā é a última palavra de toda a moralidade e religião: renda-se a Krsna [Críxena].” — BG.
O Bagavat Gita (Cântico Celestial), tido por alguns como “jóia da sabedoria espiritual da Índia”, é uma conversação em campo de batalha “entre o Senhor Śrī Krsna [Críxena], a Suprema Personalidade da Divindade, e Arjuna, Seu amigo íntimo e devoto, a quem Ele instrui na ciência da auto-realização”. Contudo, o Bagavat Gita é apenas parte da extensa biblioteca sagrada hindu. Alguns desses escritos (Vedas, Brâmanas e os Upanichades) são encarados como Sruti, ou “foram ouvidos”, e são, portanto, considerados escritos sagrados diretamente revelados. Outros, como as epopéias e os Puranas, são Smriti, ou “lembrados”, e, assim, compostos por autores humanos, embora derivados de revelação. Um exemplo é o Manu Smriti, que esboça as leis religiosas e sociais hindus, além de explicar a base para o sistema de castas. Quais são algumas das crenças que surgiram desses escritos hindus?
Ensinos e Conduta — Ainsa e Varna
No hinduísmo, como também em outras religiões, há certos conceitos básicos que influenciam o pensamento e a conduta cotidiana. Um notável exemplo é o ainsa (sânscrito: ahinsa), ou não-violência, pela qual Mohandas Gandhi (1869-1948), conhecido como o Mahatma, tanto se celebrizou. À base dessa filosofia, os hindus não devem matar outras criaturas, nem praticar violência contra elas, que é uma das razões pelas quais eles veneram certos animais, como vacas, cobras e macacos. Os mais estritos expoentes desse ensino do ainsa e respeito à vida são os seguidores do jainismo (fundado no sexto século AEC), que andam descalços e usam até mesmo uma máscara para não engolir acidentalmente algum inseto. Em contraste, os siques são conhecidos por sua tradição guerreira, e Singh, um sobrenome comum entre eles, significa leão.
Um aspecto universalmente conhecido do hinduísmo é o varna, ou sistema de castas, que divide a sociedade em rígidas classes. É impossível não perceber que a sociedade hindu ainda está estratificada por esse sistema, ainda que seja rejeitado pelos budistas e jainistas. Contudo, assim como a discriminação racial persiste nos Estados Unidos e em outras partes, da mesma forma o sistema de castas está profundamente arraigado no espírito indiano. De certo modo é uma forma de conscientização de classe que, de maneira paralela, ainda se encontra hoje em menor grau na sociedade britânica e em outros países. (Tiago 2:1-9) Assim, na Índia, a pessoa nasce dentro de um rígido sistema de castas e praticamente não existe uma saída. Ademais, o hindu mediano não procura uma saída. Ele considera isso como sua predeterminada e inescapável sorte na vida, o resultado de suas ações numa existência anterior, ou carma. Mas, como se originou o sistema de castas? Mais uma vez temos de recorrer à mitologia hindu.
Segundo a mitologia hindu, havia originalmente quatro principais castas baseadas nas partes do corpo do Puruxa, figura do pai original da humanidade. Os hinos do Rig-Veda dizem:
“Quando dividiram o Puruxa, quantas partes fizeram?
Como eles chamam sua boca, seus braços? Como chamam suas coxas e pés?
A brâmane [a casta mais elevada] era sua boca, de ambos os seus braços se fez a rajânia.
Suas coxas se tornaram a vaixiá, de seus pés se produziu a sudra.” — The Bible of the World (A Bíblia do Mundo).
Assim, os brâmanes sacerdotais, a mais elevada casta, supostamente se originaram da boca do Puruxa, sua parte mais elevada. A classe governante, ou guerreira, (xátria ou rajânia) veio de seus braços. A classe mercadora e lavradora, chamada vaixá, ou vaixiá, originou-se de suas coxas. Uma casta inferior, a sudra, ou xudra, ou classe trabalhadora, resultou da parte mais inferior do corpo, os pés.
No decorrer dos séculos vieram a existir até mesmo castas inferiores, os párias e os intocáveis, ou como Mahatma Gandhi os chamava mais bondosamente, os harijãs, ou “pessoas pertencentes ao deus Vixenu”. Embora a intocabilidade seja ilegal na Índia desde 1948, os intocáveis ainda levam uma existência muito dura.
Com o tempo as castas se multiplicaram, passando a corresponder a quase toda profissão e artesanato na sociedade hindu. Este antigo sistema de castas, que mantém cada qual no seu respectivo lugar social, é na realidade também racial e “inclui distintos tipos raciais que variam desde o que é conhecido como tronco ariano [de pele clara] ao pré-dravidiano [de pele mais escura]”. Varna, ou casta, significa “cor”. “As primeiras três castas eram arianas, as pessoas mais claras; a quarta casta, que incluía os aborígenes de pele escura, era não-ariana.” (Série Mitos e Lendas — Índia, de Donald A. Mackenzie, em inglês) É um fato da vida na Índia que o sistema de castas, fortalecido pelo ensino religioso do carma, mantém milhões de pessoas presas a eterna pobreza e injustiça.
O Frustrador Ciclo da Existência
Outra crença básica que afeta a ética e a conduta hindu, e uma das mais vitais, é o ensino do carma. Trata-se do princípio de que toda ação tem suas conseqüências, positivas ou negativas; determina cada existência da alma transmigrada ou reencarnada. Como explica o Garuda Purana:
“O homem é o criador de seu próprio destino, e mesmo na vida fetal, ele é afetado pela dinâmica das obras praticadas na sua existência anterior. Quer confinado num reduto de montanha, quer tranqüilo na superfície de um mar, quer seguro no colo de sua mãe quer erguido sobre a cabeça dela, o homem não pode fugir dos efeitos de suas próprias ações passadas. . . . O que quer que tenha de acontecer a um homem, em qualquer idade ou época específicas, certamente lhe sobrevirá então e naquela data.”
O Garuda Purana continua:
“O conhecimento adquirido por um homem na sua vida anterior, a riqueza dada como caridade na sua existência anterior e as obras feitas por ele numa encarnação prévia, vão à frente de sua alma na sua permanência temporária.”
De que depende essa crença? A alma imortal é essencial para o ensino do carma, e é o carma que faz o conceito hindu da alma diferir do da cristandade. Os hindus crêem que cada alma pessoal, jiva ou pran, passa por muitas reencarnações e possivelmente pelo “inferno”. Ela tem de lutar para unir-se à “Suprema Realidade”, também chamada Brâmane, ou Brâmine (não confundir com o deus hindu Brama). Por outro lado, as doutrinas da cristandade oferecem à alma as opções do céu, inferno, purgatório ou limbo, dependendo da crença religiosa. — Eclesiastes 9:5, 6, 10; Salmo 146:4.
Como conseqüência do carma, os hindus tendem a ser fatalistas. Crêem que o atual status ou condição da pessoa resulta duma existência prévia, sendo, portanto, merecida, seja boa ou má. O hindu pode tentar estabelecer um registro melhor, de modo que a próxima existência seja mais suportável. Assim, ele aceita mais prontamente a sua sorte na vida do que o ocidental. O hindu vê tudo como o resultado da lei de causa e efeito em relação à sua existência anterior. É o princípio de colher o que se semeou numa suposta existência anterior. Tudo isso, naturalmente, baseia-se na premissa de que o homem tem uma alma imortal que passa para uma outra vida, seja esta como humano, animal ou vegetal.
Assim, qual é o derradeiro objetivo da fé hindu? É alcançar a mocsa, que significa libertação, ou liberação, do círculo vicioso de renascimentos e diferentes existências. Por conseguinte, é um escape da existência incorporada, não para o corpo, mas sim para a “alma”. “Visto que a mocsa, ou libertação duma longa série de encarnações, é o alvo de todo hindu, o maior evento de sua vida é realmente a morte”, diz certo comentarista. Pode-se conseguir a mocsa seguindo os diferentes margas, ou caminhos. (Veja quadro, página 110.) É espantoso ver quanto desse ensino religioso depende do antigo conceito babilônico da alma imortal!
Todavia, segundo a Bíblia, esse desprezo e desdém para com a vida material é diametralmente contrário ao propósito original de Jeová Deus para com a humanidade. Ao criar o primeiro casal humano, ele lhes atribuiu uma existência terrestre feliz e jubilosa. O relato bíblico nos diz:
“E Deus passou a criar o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou. Ademais, Deus os abençoou e Deus lhes disse: ‘Sede fecundos e tornai-vos muitos, e enchei a terra, e sujeitai-a, e tende em sujeição os peixes do mar, e as criaturas voadoras dos céus, e toda criatura vivente que se move na terra.’ . . . Depois, Deus viu tudo o que tinha feito, e eis que era muito bom.” (Gênesis 1:27-31)
A Bíblia profetiza uma iminente era de paz e justiça para a terra, uma era em que cada família terá a sua própria moradia adequada, e a saúde e vida perfeitas serão o quinhão eterno da humanidade. — Isaías 65:17-25; 2 Pedro 3:13; Revelação (Apocalipse) 21:1-4.
A próxima pergunta a responder é: Que deuses o hindu tem de agradar a fim de alcançar um bom carma?
O Panteão de Deuses Hindus
Embora o hinduísmo afirme existir milhões de deuses, na prática real há certos deuses favoritos que se têm tornado o ponto focal de várias seitas dentro do hinduísmo. Três dos deuses mais destacados estão incluídos no que os hindus chamam de Trimúrti, uma trindade, ou tríade, de deuses. — Quanto a outros deuses hindus, veja quadro nas páginas 116-17.
A tríade consiste em Brama, o Criador, Vixenu, o Preservador e Xiva, o Destruidor, e cada qual tem pelo menos uma esposa ou consorte. Brama é casado com Sarasváti, a deusa do conhecimento. A esposa de Vixenu é Lacximi e a primeira esposa de Xiva era Sati, que se suicidou. Foi a primeira mulher a passar pelo fogo sacrificial, tornando-se assim a primeira sati. Seguindo seu exemplo mitológico, milhares de viúvas hindus ao longo dos séculos se sacrificaram na pira funerária de seu marido, embora tal prática seja agora ilegal. Xiva tem também outra esposa, conhecida por vários nomes e títulos. Na sua forma benigna, ela é Parvati e Uma, bem como Gauri, a Dourada. Como Durga ou Cali, ela é uma deusa terrificante.
Brama, embora seja central na mitologia hindu, não ocupa um lugar de destaque na adoração do hindu mediano. De fato, bem poucos templos são dedicados a ele, embora seja chamado de Brama, o Criador. Contudo, a mitologia hindu atribui a tarefa de criar o universo material a um ser, fonte ou essência suprema — Brâmane ou Brâmine, identificado pelas sílabas sagradas OM ou AUM. Todos os três membros da tríade são considerados parte desse “Ser”, e todos os outros deuses são tidos como diferentes manifestações. Qualquer que seja o deus que então é adorado como supremo, pensa-se que essa deidade seja todo-abrangente. Assim, ao passo que os hindus veneram abertamente milhões de deuses, a maioria reconhece a existência de apenas um único Deus verdadeiro, que pode assumir muitas formas: varão, mulher, ou até mesmo animal. Por conseguinte, os peritos hindus frisam prontamente que o hinduísmo é realmente monoteísta, não politeísta. O pensamento védico posterior, contudo, descarta o conceito de um ser supremo, substituindo-o por um impessoal princípio ou realidade divina.
Vixenu, uma benevolente deidade solar e cósmica, é o centro da adoração para os seguidores do vaixnavismo. Ele aparece sob dez avatares, ou encarnações, incluindo Rama, Críxena e o Buda. Outro avatar é Vixenu Naraiana, “representado em forma humana adormecido sobre a serpente enrolada Xexa ou Ananta, flutuando nas águas cósmicas com sua esposa, a deusa Lacximi, sentada a seus pés ao passo que o deus Brama surge de um loto que cresce do umbigo de Vixenu”. — Enciclopédia de Crenças do Mundo (em inglês).
Xiva, também comumente chamado de Mahexa (Supremo Senhor) e Maadeva (Grande Deus), é o segundo maior deus do hinduísmo, e a adoração que lhe é prestada chama-se xivaísmo. Ele é descrito como “o grande asceta, o mestre iogue sentado, mergulhado na meditação nas encostas do Himalaia, com o corpo besuntado de cinzas e a cabeça coberta de cabelo emaranhado”. É também conhecido “por seu erotismo, como originador da fertilidade e supremo senhor da criação, Maadeva”. (Enciclopédia de Crenças do Mundo) Adora-se a Xiva por meio do linga, ou representação fálica.
Como muitas outras religiões do mundo, o hinduísmo tem a sua deusa suprema, que pode tanto ser atraente como aterradora. Em sua forma mais agradável ela é conhecida como Parvati e Uma. Seu gênio temível é mostrado como Durga ou Cali, uma deusa sanguinária que se deleita em sacrifícios de sangue. Como Deusa-Mãe, Cali Ma (Negra Mãe-Terra), ela é a deidade principal da seita Sacti. É retratada nua até os quadris e usando como adornos cadáveres, cobras e caveiras. No passado, vítimas humanas estranguladas eram oferecidas a ela por crentes conhecidos como tug, de onde vem a palavra portuguesa “tugue”.
O Hinduísmo e o Rio Ganges
Não podemos falar do panteão de deuses do hinduísmo sem mencionar seu rio mais sagrado — o Ganges. Grande parte da mitologia hindu relaciona-se diretamente com o rio Ganges, ou Gangá Ma (Mãe Gangá), como os devotos hindus o chamam. Eles recitam uma oração que inclui 108 diferentes nomes para o rio. Por que é o Ganges tão reverenciado pelos hindus sinceros? Por ser tão intimamente ligado à sua sobrevivência diária e à sua antiga mitologia. Eles crêem que o rio existia antes no céu qual Via-Láctea. Mas como é que se transformou num rio?
Com algumas variações, a maioria dos hindus explicaria isso da seguinte maneira: O Marajá Sagara tinha 60.000 filhos que foram mortos pelo fogo de Capila, uma manifestação de Vixenu. Suas almas estavam condenadas ao inferno, a menos que a deusa Gangá descesse do céu para purificá-los e livrá-los da maldição. Bagirati, bisneto de Sagara, intercedeu junto a Brama para que este permitisse que a sagrada Gangá descesse à terra. Certo relato continua: “Gangá respondeu: ‘Sou uma torrente tão poderosa que abalaria as fundações da terra. ’ De modo que [Bagirati], depois de fazer penitência por mil anos, recorreu ao deus Xiva, o maior de todos os ascetas, e persuadiu-o a se posicionar alto acima da terra em meio às rochas e o gelo do Himalaia. Xiva tinha cabelos emaranhados alto na sua cabeça, e ele permitiu a Gangá que se arremessasse do céu para dentro de seus cachos, que brandamente absorveram o choque ameaçador à terra. Daí Gangá escoou suavemente para a terra e fluiu das montanhas e através das planícies, trazendo água e, por conseguinte, vida para a terra seca.” — Do Oceano Para o Céu (em inglês), de Sir Edmund Hillary.
Os seguidores de Vixenu têm uma versão um pouco diferente sobre a origem do Ganges. Segundo um texto antigo, o Vixenu Purana, a sua versão é:
“Dessa região [o assento sagrado de Vixenu] procede o rio Ganges, que remove todos os pecados . . . Emana da unha do dedão do pé esquerdo de Vixenu.”
Ou, como dizem os seguidores de Vixenu, em sânscrito: “Visnu-padabja-sambhuta”, que significa “Nascido do pé, semelhante ao loto, de Vixenu”.
Os hindus crêem que o Ganges tem o poder de libertar, purificar, limpar e curar os crentes. O Vixenu Purana declara:
“Os santos, que são purificados por se banharem nas águas deste rio, e cujas mentes estejam devotadas a Quesava [Vixenu], obtêm a libertação final. O rio sagrado, ouvindo-se dele falar, ao ser desejado, visto, tocado, ao se banhar nele, ou ao se cantar hinos por ele, dia a dia purifica todos os seres. E aqueles que mesmo vivendo à distância . . . exclamarem ‘Gangá e Gangá’ serão libertados dos pecados cometidos durante as três existências prévias.”
O Bramadapurana diz:
“Quanto aos que se banham devotamente uma vez nas puras correntes do Gangá, suas tribos são protegidas por Ela contra centenas de milhares de perigos. Males acumulados durante gerações são destruídos. Simplesmente por banhar-se no Gangá a pessoa é imediatamente purificada.”
Os indianos acorrem ao rio para realizar a puja, ou adoração, oferecendo flores, salmodiando orações e recebendo dum sacerdote o tilaque, a manchinha de pasta vermelha ou amarela na testa. Daí eles entram na água para se banhar. Muitos também bebem a água, embora seja altamente poluída por esgotos, substâncias químicas e cadáveres. Mas, tão grande é a atração espiritual do Ganges que milhões de indianos almejam banhar-se pelo menos uma vez no seu ‘rio santo’, poluído ou não.
Outros trazem os corpos de seus entes queridos para serem cremados em piras na margem do rio, e daí talvez as cinzas sejam lançadas no rio. Eles crêem que isso garante a felicidade eterna para a alma que partiu. Os muito pobres para pagar uma pira funerária simplesmente lançam no rio o corpo coberto, onde é atacado por aves necrófagas, ou simplesmente se decompõe. Isto nos leva à pergunta: Além do que já consideramos, o que ensina o hinduísmo sobre a vida após a morte?
Hinduísmo e a Alma

A Bagavat Gita nos dá uma resposta, dizendo:
“Assim como a alma incorporada continuamente passa, neste corpo, da meninice à juventude, e daí à velhice, a alma similarmente passa para outro corpo, na morte.” — Capítulo 2, texto 13, em inglês.
Certo comentário hindu sobre esse texto diz: “Visto que toda entidade viva é uma alma individual, todas elas estão mudando seu corpo a todo o momento, manifestando-se às vezes como criança, às vezes como jovem e às vezes como homem idoso — embora a mesma alma espiritual esteja presente e não passe por nenhuma mudança. Esta alma individual por fim muda o próprio corpo, ao transmigrar de um para outro, e visto ser certo que terá outro corpo no próximo nascimento — quer material, quer espiritual — não havia razão para lamentação da parte de Arjuna por causa da morte.”
Note que o comentário diz que “toda entidade vivente é uma alma individual”. Essa declaração concorda com o que a Bíblia diz em Gênesis 2:7:
“E Jeová Deus passou a formar o homem do pó do solo e a soprar em suas narinas o fôlego de vida, e o homem veio a ser uma alma vivente.”
Mas, deve-se fazer uma importante distinção: Constitui-se o homem de uma alma vivente com todas as suas funções e faculdades, ou será que ele tem uma alma à parte de suas funções corporais? É o homem uma alma, ou tem ele uma alma? A seguinte citação clarifica o conceito hindu.
O capítulo 2, texto 17, do Bagavat Gita diz:
“O que permeia o inteiro corpo é indestrutível. Ninguém é capaz de destruir a imperecível alma.”
Esse texto é então explicado:
“Todo e qualquer corpo contém uma alma individual, e o sintoma da presença da alma é percebido na forma de estado de consciência individual.”
Portanto, ao passo que a Bíblia diz que o homem é uma alma, o ensino hindu declara que ele tem uma alma. E há uma colossal diferença aqui, que afeta profundamente os ensinos que são uma conseqüência desses pontos de vista. — Levítico 24:17, 18.
O ensino da alma imortal é, em última análise, tirado do antigo reservatório estagnado de conhecimento religioso de Babilônia. Tal ensino logicamente leva às conseqüências da ‘vida após a morte’, apresentadas nos ensinos de tantas religiões — reencarnação, céu, inferno, purgatório, limbo, e assim por diante. Para os hindus, céu e inferno são lugares de espera intermediários antes que a alma obtenha a reencarnação seguinte. De interesse especial é o conceito hindu do inferno.
Ensino Hindu do Inferno

Um texto do Bagavat Gita diz:
“Quando as leis da família são destruídas, Janardana, então o que certamente para os homens resulta é morar no inferno.” — I. 44, Harvard Oriental Series, Vol. 38, 1952.
Um comentário diz: “Os que são muito pecaminosos na sua vida terrestre têm de sofrer diferentes tipos de punição em planetas infernais.” No entanto, difere um pouco do tormento eterno no fogo do inferno da cristandade: “Essa punição . . . não é eterna.” Então, o que é exatamente o inferno hindu?
O seguinte é uma descrição do destino de um pecador, extraída do Marcandeia Purana:
“Daí os emissários de Iama [deus dos mortos] rapidamente amarram-no com laços horríveis e arrastam-no para o sul, trêmulo por causa do golpe de vara. Daí ele é arrastado pelos emissários de Iama, emitindo gritos medonhos e nefastos, através de terrenos escabrosos com Cusa [uma planta], espinhos, formigueiros, alfinetes e pedras, com chamas acesas em alguns pontos, cheios de buracos, escaldantes com o calor do sol e queimando com seus raios. Arrastado pelos pavorosos emissários e devorado por centenas de chacais, o pecador vai à casa de Iama através de uma temível passagem. . . .
“Quando seu corpo é queimado ele sente uma grande sensação abrasadora; e quando seu corpo é espancado ou cortado ele sente grande dor.
“Seu corpo sendo assim destruído, a criatura, embora entre num outro corpo, sofre aflição eterna por causa de suas próprias ações adversas. . . .
“Daí, para ter seus pecados lavados, ele é levado para outro de tal inferno. Depois de percorrer todos os infernos, o pecador assume uma vida animalesca. Daí, passando pela vida de vermes, insetos e moscas, animais de rapina, mosquitos, elefantes, árvores, cavalos, vacas, e através de diversas outras vidas pecaminosas e miseráveis, ele, chegando à raça de homens, nasce corcunda, feio, anão ou Chandala Pucasa.”
Compare isso com o que a Bíblia diz a respeito dos mortos:
“Pois os viventes estão cônscios de que morrerão; os mortos, porém, não estão cônscios de absolutamente nada, nem têm mais salário, porque a recordação deles foi esquecida. Também seu amor, e seu ódio, e seu ciúme já pereceram, e por tempo indefinido eles não têm mais parte em nada do que se tem de fazer debaixo do sol. Tudo o que a tua mão achar para fazer, faze-o com o próprio poder que tens, pois não há trabalho, nem planejamento, nem conhecimento, nem sabedoria no Seol, o lugar para onde vais.” — Eclesiastes 9:5, 6, 10.
Naturalmente, se, como diz a Bíblia, o homem não tem uma alma mas é uma alma, então não há existência consciente após a morte. Não há bem-aventurança e não há sofrimento. Todas as complicações ilógicas do “além” desaparecem.

O Rival do Hinduísmo
Esta forçosamente breve consideração do hinduísmo mostrou que se trata de uma religião de politeísmo baseada no monoteísmo — a crença em Brâmane, o Ser, a fonte ou a essência suprema, simbolizado pelas sílabas OM ou AUM, e de muitas facetas ou manifestações. É também uma religião que ensina a tolerância e incentiva a bondade para com os animais.
49 Por outro lado, alguns elementos do ensino hindu, tais como o carma e as injustiças do sistema de castas, junto com a idolatria e as contradições nos mitos, têm levado algumas pessoas refletidas a questionar a validade dessa fé. Um dos questionadores surgiu no noroeste da Índia por volta do ano 560 AEC. Era Sidarta Gautama. Ele fundou uma nova fé que não prosperou na Índia, não obstante, floresceu em outras partes, como explicará o nosso próximo capítulo. Essa nova fé era o budismo.

Religião — como começou? (Parte 3) Budismo — uma busca de iluminação sem Deus

POUCO conhecido fora da Ásia na virada do século 20, o budismo hoje assumiu o papel de religião universal. De fato, muitos no Ocidente admiram-se de ver o budismo vicejar ali mesmo em sua própria comunidade. Grande parte disso resulta do movimento internacional de refugiados. Comunidades asiáticas consideravelmente grandes se estabeleceram na Europa Ocidental, na América do Norte, na Austrália e em outros lugares. À medida que cada vez mais imigrantes fincam raízes em um novo país, eles também trazem consigo a sua religião. Ao mesmo tempo, mais pessoas no Ocidente se deparam com o budismo pela primeira vez. Isto, somado à permissividade e ao declínio espiritual nas igrejas tradicionais, têm feito com que alguns se convertessem à “nova” religião. — 2 Timóteo 3:1, 5.
Assim, segundo o Livro do Ano 1989 da Encyclopœdia Britannica, o budismo afirma ter cerca de 300 milhões de membros no mundo, com cerca de 200.000 na Europa Ocidental e na América do Norte respectivamente, 500.000 na América Latina e 300.000 na União Soviética. A maioria dos adeptos do budismo, porém, ainda se encontra em países asiáticos, como Sri Lanka, Myanmar (Birmânia), Tailândia, Japão, Coréia e China. Mas, quem foi o Buda? Como se iniciou essa religião? Quais são os ensinos e as práticas do budismo?

Uma Questão de Fonte Confiável
“O que se conhece da vida de Buda baseia-se principalmente na evidência dos textos canônicos, sendo que os mais extensos e abrangentes são os escritos em páli, uma língua da antiga Índia”, diz o livro World Religions—From Ancient History to the Present (Religiões do Mundo — Da História Antiga ao Presente). O que isso significa é que não existe fonte de matéria de seu tempo que nos diga algo sobre Sidarta Gautama, o fundador dessa religião, que viveu no norte da Índia no sexto século AEC. Isto, naturalmente, representa um problema. Mas, ainda mais importante é a pergunta: Quando e como foram produzidos os “textos canônicos”?
A tradição budista afirma que logo após a morte de Gautama, convocou-se um concílio de 500 monges para decidir qual era o autêntico ensino do Mestre. Se tal concílio realmente aconteceu é tema de muito debate entre peritos e historiadores budistas. O ponto importante que devemos notar, porém, é que mesmo textos budistas reconhecem que aquilo que se decidiu ser o ensino autêntico não foi assentado por escrito, mas sim memorizado pelos discípulos. A escrita efetiva dos textos sagrados teve de esperar um bom tempo.
Segundo certas crônicas cingalesas do quarto e sexto séculos EC, os mais antigos desses “textos canônicos” em páli foram assentados por escrito durante o reinado do rei Vatagamani Abhaia, do primeiro século AEC. Outros relatos da vida de Buda não apareceram por escrito antes talvez do primeiro ou mesmo quinto século EC, cerca de mil anos depois de seu tempo.
Assim, diz o Abingdon Dictionary of Living Religions (Dicionário Abingdon de Religiões Vivas): “As ‘biografias’ são tanto tardias em origem como repletas de matéria lendária e mítica, e os mais antigos textos canônicos são produtos de um longo processo de transmissão oral que evidentemente incluiu revisões e muita adição.” Certo perito até mesmo “sustentou que nem uma única palavra do ensino registrado pode ser atribuída com insofismável certeza ao próprio Gautama”. Justificam-se tais críticas?

A Concepção e o Nascimento do Buda
Considere os seguintes excertos de Jataca, parte do cânon em páli, e Buda-charita, um texto em sânscrito do segundo século EC sobre a vida do Buda. Primeiro, o relato de como a mãe do Buda, rainha Maha-Maia, veio a concebê-lo num sonho.
“Os quatro anjos-da-guarda vieram e ergueram-na, junto com o seu leito, e levaram-na aos contrafortes do Himalaia. . . . Daí vieram as esposas desses anjos-da-guarda, e conduziram-na ao lago Anotata, e banharam-na, para remover toda impureza humana. . . . Não longe dali ficava a Montanha de Prata, e nela uma mansão dourada. Colocaram ali um leito divino com a cabeceira voltada para o oriente, e deitaram-na nele. Neste ponto o futuro Buda se havia tornado um esplêndido elefante branco . . . Ele subiu a Montanha de Prata e . . . rodeou três vezes o leito de sua mãe, com seu lado direito virado para o leito, e golpeando-a em seu lado direito, parecia entrar no ventre dela. Assim ocorreu a concepção na festividade do solstício de verão.”
Quando a rainha contou o sonho a seu marido, o rei, ele convocou 64 eminentes sacerdotes hindus, alimentou-os e vestiu-os, e pediu uma interpretação. Esta foi a resposta deles:
“Não te aflijas, grande rei! . . . Terás um filho. E ele, se continuar a levar a vida caseira, tornar-se-á um monarca universal; mas, se ele abandonar a vida caseira e se retirar do mundo, se tornará um Buda, e afastará as nuvens do pecado e da tolice deste mundo.”
Depois disso, ocorreram alegadamente 32 milagres:
“Todos os dez mil mundos subitamente tremeram, estremeceram e se sacudiram. . . . Os fogos se extinguiram em todos os infernos; . . . acabaram-se as doenças entre os homens; . . . todos os instrumentos musicais emitiram seus tons sem serem tocados; . . . no poderoso oceano a água tornou-se doce; . . . os inteiros dez mil mundos viraram uma só massa de grinaldas da mais alta magnificência possível.”
Daí ocorreu o incomum nascimento do Buda num jardim de árvores-sal chamado Bosque Lumbini. Quando a rainha desejou deitar mão num ramo da mais alta árvore-sal do bosque, a árvore anuiu por inclinar-se ao seu alcance. Segurando o ramo e em pé, ela deu à luz.
“Ele saiu do ventre de sua mãe como um pregador que desce do púlpito, ou como um homem que desce uma escadaria, estirando as mãos e os pés, livre de qualquer impureza do ventre de sua mãe. . . . ”
“Assim que nasce, o [futuro Buda] planta firmemente os pés rente ao chão, dá sete passos para o norte, com uma capota branca acima da cabeça, e inspeciona todos os quadrantes do mundo, exclamando em tom inigualável: No mundo todo eu sou chefe, o melhor e o mais destacado; este é meu último nascimento; jamais nascerei de novo.”
Há também histórias igualmente minuciosas sobre sua infância, seus encontros com jovens admiradoras, suas peregrinações e praticamente todos os eventos de sua vida. Talvez não seja de admirar que a maioria dos peritos rejeite todos esses relatos como lendas e mitos. Um destacado funcionário do Museu Britânico até mesmo sugere que devido à “grande quantidade de lenda e milagre, . . . uma vida histórica do Buda está além de restauração”.
Apesar desses mitos, existe um relato tradicional da vida do Buda amplamente difundido. Um texto moderno, A Manual of Buddhism (Manual do Budismo), publicado em Colombo, Sri Lanka, fornece o seguinte relato simplificado:
“No dia de lua cheia de maio do ano 623 AC nasceu no distrito de Nepal um príncipe indiano saquiano, de nome Sidata Gotama. O rei Sudodana era seu pai, e a rainha Maha Maia era sua mãe. Ela morreu alguns dias depois do nascimento da criança e Maha Pajapati Gotami tornou-se sua mãe adotiva.
“Aos dezesseis anos de idade ele casou-se com sua prima, a bela princesa Iasodara.
“Por uns treze anos após seu feliz casamento ele levou uma vida de esplendor, bem-aventuradamente desconhecedor das vicissitudes da vida fora dos portões do palácio.
“Com a marcha do tempo, começou gradativamente a compreender a verdade. Em seu 29.° ano, que marcou o ponto de virada em sua carreira, nasceu seu filho Rahula. Ele considerou sua prole como impedimento, pois entendeu que todos, sem exceção, estavam sujeitos ao nascimento, à doença e à morte. Compreendendo assim a universalidade da tristeza, ele decidiu descobrir uma panacéia para essa doença universal da humanidade.
“Assim, renunciando a seus prazeres palacianos, ele deixou a casa certa noite . . . cortou o cabelo, vestiu a roupa simples de um asceta, e saiu a peregrinar como Buscador da Verdade.”
Claramente, estes poucos detalhes biográficos contrastam-se nitidamente com os relatos fantásticos encontrados nos “textos canônicos”. E, à exceção do ano de seu nascimento, eles são comumente aceitos.

A Iluminação — Como AconteceuQual foi o supramencionado “ponto de virada em sua carreira”? Foi quando, pela primeira vez na vida, ele viu um enfermo, um ancião e um cadáver. Esta experiência deixou-o aflito com relação ao significado da vida — Por que os homens nascem, apenas para sofrer, envelhecer e morrer? Daí, informa-se que ele viu um homem santo, que renunciara o mundo em busca da verdade. Isto impeliu Gautama a renunciar sua família, seus bens e seu nome principesco e passar os seguintes seis anos buscando a resposta de mestres e gurus hindus, mas sem êxito. Os relatos nos dizem que ele dedicou-se a um proceder de meditação, jejum, ioga e extremo desprendimento, não obstante, não encontrou nenhuma paz ou iluminação espiritual.
Por fim, ele veio a perceber que seu proceder de desprendimento extremo era tão inútil como a vida regalada que levara antes. Adotou então o que chamou de Caminho Médio, evitando os extremos dos estilos de vida que seguira antes. Decidindo que a resposta devia ser encontrada na sua própria percepção, ele sentou-se para meditar debaixo de um pipal, ou figueira-dos-pagodes indiana. Resistindo a ataques e tentações do diabo Mara, ele continuou firme em sua meditação por quatro semanas (alguns dizem sete semanas) até que supostamente transcendeu todo conhecimento e entendimento e atingiu a iluminação.
Por esse processo, na terminologia budista, Gautama tornou-se o Buda — o Despertado, ou Iluminado. Ele atingira o derradeiro alvo, Nirvana, o estado de paz e iluminação perfeita, libertado do desejo e do sofrimento. Tornou-se também conhecido como Saquiamuni (sábio da tribo sáquia), e não raro dirigia-se a si mesmo como Tatagata (um que assim veio [para ensinar]). Diferentes seitas budistas, contudo, têm diferentes conceitos sobre este assunto. Alguns encaram-no estritamente como ser humano que encontrou o caminho da iluminação para si mesmo e ensinou-o a seus seguidores. Outros encaram-no como o último duma série de Budas que vieram ao mundo para pregar ou reavivar o darma (páli, Dama), o ensino ou caminho do Buda. Ainda outros encaram-no como bodisatva, alguém que alcançou a iluminação mas postergou a entrada no Nirvana a fim de ajudar outros em sua busca de iluminação. O que quer que seja, este evento, a Iluminação, é de importância central para todas as escolas do budismo.

A Iluminação — O Que É?
Tendo conseguido a iluminação, e depois de vencer certa hesitação inicial, o Buda pôs-se a ensinar a outros a sua recém-encontrada verdade, seu darma. Seu primeiro e provavelmente mais importante sermão foi proferido na cidade de Benares, num parque de veados, a cinco bicus — discípulos ou monges. Nele, ensinou que, para se ser salvo, deve-se evitar tanto o proceder de indulgência sensual como o do ascetismo, e seguir o Caminho Médio. Daí, deve-se entender e seguir as Quatro Nobres Verdades que podem brevemente ser assim resumidas:

(1) Toda existência é sofrimento.
(2) O sofrimento vem do desejo ou anseio.
(3) A cessação do desejo significa o fim do sofrimento.
(4) Consegue-se a cessação do desejo seguindo-se o Caminho Óctuplo, controlando a conduta, o pensamento e a crença da pessoa.

Este sermão sobre o Caminho Médio e as Quatro Nobres Verdades engloba a essência da Iluminação e é considerado o epítome de todo o ensino de Buda. (Em contraste, compare com Mateus 6:25-34; 1 Timóteo 6:17-19; Tiago 4:1-3; 1 João 2:15-17.) Gautama não reivindicou inspiração divina para seu sermão, mas deu mérito a si próprio com as palavras “descoberto pelo Tatagata”. Alega-se que em seu leito de morte o Buda disse a seus discípulos: “Buscai a salvação apenas na verdade; não procureis ajuda de ninguém, exceto de vós mesmos.” Assim, segundo o Buda, a iluminação vem, não de Deus, mas sim de empenho pessoal em desenvolver raciocínio correto e boas ações.
Não é difícil perceber por que esse ensino foi bem recebido na sociedade indiana da época. Ele condenava as gananciosas e corruptas práticas religiosas promovidas pelos brâmanes hindus, ou casta sacerdotal, por um lado, e, por outro, o rígido ascetismo dos jainistas e outros cultos místicos. Acabou também com os sacrifícios e rituais, as miríades de deuses e deusas, e o fatigante sistema de castas que dominava e escravizava todo aspecto da vida das pessoas. Em suma, prometia libertação a todos os que se dispusessem a seguir o caminho do Buda.

O Budismo Amplia a Sua InfluênciaQuando os cinco bicus aceitaram o ensino do Buda, tornaram-se os primeiros sanga, ou ordem de monges. Assim, as “Três Jóias” (Triratna) do budismo estavam completas, a saber, o Buda, o darma e o sanga, que supostamente ajudariam as pessoas a entrar no caminho da iluminação. Assim preparado, Gautama, o Buda, saiu a pregar em toda a extensão do vale do Ganges. Pessoas de todo o nível e condição sociais vinham ouvi-lo, e tornavam-se discípulos seus. Por ocasião de sua morte, aos 80 anos, ele já era bem conhecido e bem respeitado. Consta que as últimas palavras a seus discípulos foram: “A decadência é inerente a todas as coisas. Produzi a vossa própria salvação com diligência.”
No terceiro século AEC, cerca de 200 anos depois da morte do Buda, apareceu o maior paladino do budismo, o imperador Asoca, que pôs sob seu controle a maior parte da Índia. Entristecido pelas matanças e convulsões causadas por suas conquistas, ele adotou o budismo e deu-lhe apoio estatal. Erigiu monumentos religiosos, convocou concílios e exortou o povo a viver segundo os preceitos do Buda. Asoca enviou também missionários budistas a todas as partes da Índia e ao Sri Lanka, Síria, Egito e Grécia. Principalmente devido aos empenhos de Asoca, o budismo passou de seita indiana a religião universal. Justificadamente, alguns o consideram o segundo fundador do budismo.
Do Sri Lanka o budismo se propagou para o leste, a Myanmar (Birmânia), à Tailândia e a outras partes da Indochina. Para o norte, o budismo se espalhou à Cachemira e à Ásia central. A partir dessas regiões, e já no primeiro século EC, monges budistas viajaram através das agrestes montanhas e desertos e levaram sua religião para a China. Da China, foi um passo curto para o budismo chegar à Coréia e ao Japão. O budismo foi também introduzido no Tibete, vizinho da Índia ao norte. Mesclado com crenças locais, emergiu como lamaísmo, que dominou, ali, tanto a vida religiosa como política. Por volta do sexto ou sétimo século EC, o budismo já estava bem estabelecido em todo o sudeste asiático e Extremo Oriente. Mas, o que acontecia na Índia?
Ao passo que o budismo espalhava sua influência a outros países, declinava gradativamente na Índia. Profundamente envolvidos em interesses filosóficos e metafísicos, os monges passaram a perder a ligação com seus seguidores leigos. Além disso, a perda de patrocínio palaciano e a adoção de conceitos e práticas hindus apressaram a extinção do budismo na Índia. Até mesmo lugares santos budistas, como Lumbini, onde Gautama nasceu, e Buda Gaia, onde ele teve a “iluminação”, viraram ruínas. Por volta do século 13, o budismo virtualmente desaparecera da Índia, seu país de origem.
Durante o século 20, o budismo passou por outra mudança de feição. Levantes políticos na China, Mongólia, Tibete e países do sudeste asiático aplicaram-lhe um golpe devastador. Milhares de mosteiros e templos foram destruídos e centenas de milhares de monges e monjas foram afastados, aprisionados ou mesmo mortos. Não obstante, ainda se percebe fortemente a influência do budismo no modo de pensar e nos hábitos do povo desses países.
Na Europa e na América do Norte, o conceito budista de buscar a “verdade” dentro da própria pessoa parece exercer um amplo atrativo, e sua prática de meditação provê uma fuga do corre-corre do estilo de vida ocidental. É interessante que, no prefácio do livro Living Buddhism (Budismo Vivo), Tenzin Gyatso, o exilado Dalai Lama do Tibete, escreveu: “Talvez hoje o budismo tenha uma parte a desempenhar em lembrar os povos ocidentais da dimensão espiritual de suas vidas.”

Os Diversificados Caminhos do BudismoEmbora seja costumeiro falar-se do budismo como religião única, na realidade ele está dividido em várias escolas de pensamento. Baseadas em diferentes interpretações da natureza do Buda e de seus ensinos, cada qual tem suas próprias doutrinas, práticas e escrituras. Estas escolas estão adicionalmente divididas em numerosos grupos e seitas, muitos dos quais fortemente influenciados por culturas e tradições locais.
O Teravada (Caminho dos Mais Velhos), ou Hinaiana (Pequeno Veículo) é uma escola do budismo que floresce no Sri Lanka, Myanmar (Birmânia), Tailândia, Kampuchea (Cambodja) e Laos. Alguns consideram-na a escola conservadora. Ela enfatiza ganhar sabedoria e a pessoa produzir a sua própria salvação por renunciar ao mundo e levar uma vida de monge, devotando-se à meditação e ao estudo num mosteiro.
É comum ver em alguns desses países grupos de rapazes com cabeça rapada, em longos trajes cor de açafrão e descalços, segurando tigelas de esmolas para receberem sua provisão diária dos crentes leigos, cujo papel é sustentá-los. É costumeiro os homens passarem pelo menos parte de sua vida num mosteiro. O derradeiro objetivo da vida monástica é tornar-se arat, isto é, alguém que atingiu a perfeição espiritual e a libertação da dor e do sofrimento nos ciclos do renascimento. O Buda indicou o caminho; compete a cada um segui-lo.
A escola Mahaiana (Grande Veículo) do budismo encontra-se comumente na China, Coréia, Japão e Vietnã. Tem este nome porque destaca o ensino do Buda de que “a verdade e o caminho da salvação é para todos, quer se viva numa caverna, num mosteiro, quer numa casa . . . Não é apenas para os que renunciam ao mundo”. O conceito básico mahaiano é que o amor e a compaixão do Buda são tão grandes que ele não privaria ninguém da salvação. Ensina que, estando a natureza do Buda presente em todos nós, todos somos capazes de tornar-nos um buda, um iluminado, ou bodisatva. A iluminação vem, não através de estrênua autodisciplina, mas sim pela fé no Buda e compaixão para com todas as coisas vivas. Isto obviamente exerce maior atrativo sobre as massas de mentalidade prática. Por causa dessa atitude mais liberal, contudo, desenvolveram-se numerosos grupos e cultos.
Entre as muitas seitas mahaianas que se desenvolveram na China e no Japão figuram as escolas Terra Pura e Zen do budismo. A primeira centraliza sua crença na fé no poder salvador do Buda Amida, que prometeu a seus seguidores um renascimento na Terra Pura, ou Paraíso Ocidental, uma terra de alegria e deleite habitada por deuses e seres humanos. De lá, é fácil alcançar o Nirvana. Repetindo a oração: “Tenho fé em Buda Amida”, às vezes milhares de vezes por dia, os devotos se purificam a fim de chegar à iluminação ou ganhar o renascimento no Paraíso Ocidental.
O budismo Zen (escola Ch’an, na China) derivou seu nome da prática da meditação. As palavras ch’an (chinês) e zen (japonês) são variações da palavra sânscrita diana, que significa “meditação”. Esta disciplina ensina que o estudo, as boas obras e os rituais têm pouco mérito. Pode-se conseguir a iluminação simplesmente por meditar em enigmas imponderáveis, tais como: ‘Qual é o ruído de se bater palmas com uma só mão?’, e: ‘O que encontramos onde nada existe?’ A natureza mística do budismo zen tem encontrado expressão nas finas artes de arranjos florais, caligrafia, pinturas a nanquim, poesia, jardinagem, e assim por diante, e estas têm sido bem recebidas no Ocidente. Hoje, existem centros de meditação Zen em muitos países ocidentais.
Por fim, há o budismo Tibetano, ou Lamaísmo. Esta forma de budismo é às vezes chamada de Mantraiana (Veículo Mantra) por causa do largo uso de mantras, uma série de sílabas com ou sem significado, em longos recitais. Em vez de enfatizar a sabedoria ou a compaixão, esta forma de budismo enfatiza o uso de rituais, orações, magia, e espiritismo na adoração. As orações são repetidas milhares de vezes por dia com a ajuda de contas de oração e tambores de oração. É possível aprender os complicados rituais apenas sob instrução oral dos lamas, ou líderes monásticos, dentre os quais os mais conhecidos são o Dalai Lama e o Panchen Lama. Depois da morte de um lama, faz-se a busca de uma criança na qual alegadamente o lama teria sido reencarnado para ser o próximo líder espiritual. Esse termo, contudo, é também aplicado genericamente a todos os monges, que, segundo certa estimativa, certa vez somavam cerca de um quinto de toda a população do Tibete. Os lamas eram também mestres, médicos, proprietários de terra ou figuras políticas.
Estas principais divisões do budismo estão, por sua vez, subdivididas em muitos grupos, ou seitas. Alguns são devotados a um líder específico, como Nichiren, no Japão, que ensinou que apenas o Sutra de Loto mahaiano contém os ensinos definitivos do Buda, e Nun Ch’in-Hai, em Taiwan (Formosa), que tem numerosos seguidores. Neste respeito, o budismo não difere muito da cristandade com suas muitas denominações e seitas. De fato, é comum ver pessoas que afirmam ser budistas envolvidas em práticas do taoísmo, do xintoísmo, da adoração de ancestrais e até mesmo da cristandade. Todas estas seitas budistas afirmam basear suas crenças e práticas nos ensinos do Buda.

Os Três Cestos e Outras Escrituras Budistas
Os ensinos atribuídos ao Buda foram transmitidos pela palavra oral, e começaram a ser assentados por escrito apenas séculos depois de sua morte. Assim, quando muito, eles representam o que seus seguidores em gerações posteriores pensavam que ele disse e fez. Isto se complica ainda mais pelo fato de que, naquela época, o budismo já se havia ramificado em muitas escolas. Assim, diferentes textos apresentam versões bem diferentes do budismo.
Os mais antigos dos textos budistas foram escritos em páli, alegadamente relacionada com a língua nativa do Buda, por volta do primeiro século AEC. São aceitos pela escola Teravada como sendo os textos autênticos. Consistem em 31 livros organizados em três coleções chamadas de Tipitaca (sânscrito, Tripitaca), significando “Três Cestos”, ou “Três Coleções”. O Vinaia Pitaca (Cesto da Disciplina) trata especialmente de regras e regulamentos para monges e monjas. O Suta Pitaca (Cesto de Discursos) contém os sermões, as parábolas e os provérbios enunciados pelo Buda e seus principais discípulos. Por último, o Abidama Pitaca (Cesto da Derradeira Doutrina) consiste em comentários sobre doutrinas budistas.
Por outro lado, os escritos da escola Mahaiana são na maioria em sânscrito, chinês e tibetano, e são volumosos. Apenas os textos em chinês consistem em mais de 5.000 volumes. Contêm muitos conceitos não constantes nos escritos anteriores, tais como relatos de budas tão numerosos como os grãos de areia do Ganges, que alegadamente viveram por incontáveis milhões de anos, cada qual presidindo sobre seu próprio mundo buda. Não há exagero quando certo escritor observa que esses textos são “caracterizados pela diversidade, imaginação extravagante, personalidades pitorescas e repetições desordenadas”.
É desnecessário dizer que poucas pessoas conseguem compreender esses tratados altamente abstratos. Conseqüentemente, esses desenvolvimentos posteriores têm levado o budismo para muito longe do que o Buda originalmente intencionara. Segundo o Vinaia Pitaca, o Buda queria que seus ensinos fossem entendidos não apenas pela classe culta, mas por todo tipo de pessoa. Para isso, ele insistia que seus conceitos fossem ensinados na língua do povo comum, e não na sagrada língua morta do hinduísmo. Assim, à objeção dos budistas teravadas de que esses livros não são canônicos, a resposta dos seguidores mahaianos é que Gautama, o Buda, primeiro ensinou aos simples e ignorantes, mas, para os instruídos e sábios, ele revelou os ensinos escritos mais tarde nos livros mahaianos.

O Ciclo do Carma e do Samsara
Embora o budismo até certo ponto libertasse as pessoas das amarras do hinduísmo, seus conceitos fundamentais ainda são um legado dos ensinos hindus do carma e do samsara. O budismo, conforme originalmente ensinado pelo Buda, difere do hinduísmo no sentido de que nega a existência de uma alma imortal, mas fala do indivíduo como sendo “uma combinação de forças ou energias físicas e mentais”. Não obstante, seus ensinos ainda se centralizam nos conceitos de que toda a humanidade passa de vida em vida através de incontáveis renascimentos (samsara) e sofre as conseqüências de ações passadas e presentes (carma). Ainda que a sua mensagem de iluminação e libertação desse ciclo possa parecer atraente, alguns se perguntam: Quão sólida é a base? Que prova existe de que todos os sofrimentos são o resultado das ações da pessoa numa vida anterior? E, de fato, que evidência existe de que realmente há alguma vida anterior?
Certa explicação da lei do carma diz:
“O cama [equivalente de carma em páli] é uma lei em si mesmo. Mas isso não significa que deva existir um legislador. Leis comuns da natureza, como a gravidade, não necessitam de legislador. A lei do cama também não exige legislador. Ela opera em seu próprio campo sem a intervenção dum agente diretivo externo, independente.” — Manual do Budismo.
É esse um raciocínio sólido? Será que as leis da natureza realmente não necessitam de legislador? O perito em foguetes Dr. Wernher von Braun disse certa vez: “As leis naturais do universo são tão precisas que não temos dificuldade alguma em construir uma espaçonave para voar à lua, e podemos cronometrar o vôo com a precisão de uma fração de segundo. Estas leis devem ter sido estabelecidas por alguém.” A Bíblia também fala sobre a lei da causa e efeito. Ela nos diz: “De Deus não se mofa. Pois, o que o homem semear, isso também ceifará.” (Gálatas 6:7) Em vez de dizer que essa lei não requer legislador, ela destaca que “de Deus não se mofa”, indicando que essa lei foi posta em operação pelo seu Criador, Jeová.
Além disso, a Bíblia diz-nos que “o salário pago pelo pecado é a morte”, e que “aquele que morreu foi absolvido do seu pecado”. Até mesmo os tribunais de justiça reconhecem que ninguém deve sofrer dupla condenação por qualquer crime que cometa. Por que, então, deveria a pessoa que já pagou por seus pecados, por morrer, renascer apenas para sofrer novamente as conseqüências de seus atos passados? Ademais, sem ter conhecimento dos atos passados pelas quais está sendo punida, como pode a pessoa arrepender-se e melhorar? Poderia isso ser considerado justiça? É coerente com a misericórdia, que, segundo se diz, é a mais notável qualidade do Buda? Em contraste, a Bíblia, depois de declarar que “o salário pago pelo pecado é a morte”, diz mais: “Mas o dom dado por Deus é a vida eterna por Cristo Jesus, nosso Senhor.” Sim, ela promete que Deus acabará com toda corrupção, pecado e morte e trará liberdade e perfeição para toda a humanidade. — Romanos 6:7, 23; 8:21; Isaías 25:8.
Quanto ao renascimento, segue-se uma explanação do perito budista Dr. Walpola Rahula:
“Um ser nada é senão uma combinação de forças ou energias físicas e mentais. O que chamamos de morte é o total não-funcionamento do corpo físico. Será que todas essas forças e energias cessam completamente com o não-funcionamento do corpo? O budismo diz: ‘Não.’ Vontade, volição, desejo, ânsia de existir, de continuar, de tornar-se sempre mais importante, é uma tremenda força que move inteiras vidas, inteiras existências, que move até mesmo o mundo inteiro. Esta é a maior força, a maior energia do mundo. Segundo o budismo, essa força não cessa com o não-funcionamento do corpo, que é a morte; mas continua a manifestar-se em outra forma, produzindo a reexistência, chamada de renascimento.”
No momento da concepção, a pessoa herda 50 por cento de seus genes de cada um dos genitores. De modo que não existe maneira de ela poder ser cem por cento igual a alguém de uma existência anterior. De fato, não é possível sustentar o processo de renascimento através de algum conhecido princípio de ciência. Não raro, os que crêem na doutrina do renascimento citam como prova as experiências de pessoas que afirmam lembrar-se de rostos, eventos e lugares que não conheciam antes. É isso lógico? Dizer que a pessoa que pode lembrar-se de coisas de tempos passados deve ter vivido naquela era, implica também dizer que a pessoa que pode predizer o futuro — e são muitas as que afirmam fazê-lo — devem ter vivido no futuro. O que, obviamente, não é o caso.
Mais de 400 anos antes do Buda, a Bíblia falou de uma força de vida. Descrevendo o que acontece por ocasião da morte da pessoa, ela diz: “Então o pó retorna à terra, assim como veio a ser, e o próprio espírito retorna ao verdadeiro Deus que o deu.” (Eclesiastes 12:7) A palavra “espírito” é traduzida da palavra hebraica rú?ahh, que significa a força de vida que anima todas as criaturas viventes, humanas e animais. (Eclesiastes 3:18-22) Contudo, a importante diferença é que rú?ahh é uma força impessoal, não tem vontade própria, tampouco retém a personalidade ou quaisquer das características do indivíduo falecido. Não passa de uma pessoa para outra na morte, mas sim “retorna ao verdadeiro Deus que o deu”. Em outras palavras, as perspectivas de vida futura da pessoa — a esperança da ressurreição — estão inteiramente nas mãos de Deus. — João 5:28, 29; Atos 17:31.

Nirvana — Atingindo o Inatingível?
Isto nos leva ao ensino do Buda a respeito de iluminação e salvação. Em termos budistas, o conceito básico da salvação é a libertação das leis do carma e samsara, bem como chegar ao Nirvana. E o que é o Nirvana? Os textos budistas dizem que é impossível descrever ou explicar, podendo apenas ser vivenciado. Não é um céu, para onde a pessoa vai após a morte, mas sim uma consecução que está ao alcance de todos, aqui e agora. Afirma-se que a própria palavra significa “apagar, extinguir”. Assim, alguns definem o Nirvana como a cessação de toda paixão e desejo; uma existência isenta de todo sentimento sensorial, como a dor, o medo, a ânsia, o amor ou o ódio; um estado de eterna paz, descanso e imutabilidade. Essencialmente, diz-se ser a cessação da existência individual.
O Buda ensinou que a iluminação e a salvação — a perfeição do Nirvana — vem, não de algum Deus ou força exterior, mas sim de dentro da pessoa através de seus próprios empenhos em boas ações e pensamentos corretos. Isto suscita a pergunta: Pode algo perfeito vir de algo imperfeito? Não nos ensina a experiência comum que, como disse o profeta hebreu Jeremias, ‘não é do homem terreno o seu caminho, não é do homem que anda o dirigir o seu passo’? (Jeremias 10:23) Se ninguém é capaz de exercer controle total de suas ações mesmo nos simples assuntos do dia-a-dia, é lógico pensar que alguém poderia produzir sua salvação eterna inteiramente sozinho? — Salmo 146:3, 4.
Assim como uma pessoa afundada na areia movediça provavelmente não sairá sozinha dali, toda a humanidade está presa na armadilha do pecado e da morte, e ninguém é capaz de se desembaraçar sozinho dessa dificuldade. (Romanos 5:12) Todavia, o Buda ensinou que a salvação depende unicamente dos empenhos da própria pessoa. Sua exortação de despedida a seus discípulos foi: “Confiai em vós mesmos e não confiai em ajuda externa; apegai-vos à verdade como uma lâmpada; buscai a salvação apenas na verdade; não procureis a ajuda de ninguém, exceto de vós mesmos.”

Iluminação ou Desilusão?
Qual é o efeito de tal doutrina? Inspira em seus crentes a verdadeira fé e devoção? O livro Budismo Vivo diz que, em alguns países budistas, até mesmo os “monges pouco se importam com as sublimidades de sua religião. Chegar ao Nirvana é amplamente considerado como sendo uma ambição irremediavelmente irrealista, e a meditação é raramente praticada. Além do dessultório estudo da Tipitaca, eles devotam-se a ser uma benevolente e harmoniosa influência na sociedade.” Similarmente, a Enciclopédia Mundial (japonesa), comentando sobre o recente ressurgimento de interesse pelos ensinamentos budistas, observa: “Quanto mais o estudo do budismo se torna especializado, tanto mais se aparta de seu objetivo original — guiar as pessoas. Deste ponto de vista, a recente tendência de rigoroso estudo do budismo não significa necessariamente o reavivamento de uma fé viva. Ao contrário, deve-se dizer que quando uma religião passa a ser objeto de complicada erudição metafísica, a sua vida real como fé está perdendo seu poder.”
O conceito fundamental do budismo é que o conhecimento e o entendimento levam à iluminação e à salvação. No entanto, as complicadas doutrinas das várias escolas do budismo têm apenas produzido a acima mencionada situação “irremediavelmente irrealista”, que está além da compreensão da maioria dos crentes. Para eles, o budismo tem sido reduzido a fazer o bem e seguir uns poucos rituais e preceitos simples. Não vem de encontro às desconcertantes perguntas a respeito da vida, tais como: De onde viemos? Por que existimos? E qual é o futuro do homem e da terra?
Alguns budistas sinceros têm reconhecido a confusão e a desilusão que surgem das complicadas doutrinas e fatigantes rituais do budismo, conforme praticado hoje. Os empenhos humanitários de grupos e associações budistas em alguns países talvez tenham trazido algum alívio da dor e do sofrimento a muitos. Mas, como fonte de verdadeira iluminação e libertação para todos, correspondeu o budismo à sua promessa?

Iluminação Sem Deus?
Relatos da vida do Buda dizem que certa vez ele e seus discípulos estavam numa floresta. O Buda apanhou um punhado de folhas e disse a seus discípulos: “O que eu vos ensinei é comparável às folhas em minha mão, o que eu não vos ensinei é comparável à quantidade de folhas na floresta.” A implicação, naturalmente, era que o Buda ensinara apenas uma fração do que sabia. Contudo, existe uma importante omissão — Gautama, o Buda, praticamente nada tinha a dizer a respeito de Deus; tampouco alguma vez afirmou ser Deus. De fato, consta que ele disse a seus discípulos: “Se existe um Deus, é inconcebível que Ele esteja interessado em meus assuntos do dia-a-dia”, e “não existem deuses que podem ou que irão ajudar o homem”.
Neste sentido, o papel do budismo na busca do verdadeiro Deus por parte da humanidade é mínimo. A Enciclopédia de Crenças do Mundo (em inglês) observa que “o primitivo budismo aparentemente não levou em conta a questão de Deus, e certamente não ensinou nem exigiu a crença em Deus”. Em sua ênfase em cada pessoa procurar a salvação por si mesma, voltando-se para sua própria mente ou percepção em busca de iluminação, o budismo é realmente agnóstico, se não ateísta. Na tentativa de livrar-se dos grilhões de superstições do hinduísmo e seu atordoante rol de deuses míticos, o budismo pendeu para o outro extremo. Ignorou o conceito fundamental de um Ser Supremo, por cuja vontade tudo existe e opera. — Atos 17:24, 25.
Por causa desse modo de pensar voltado para si mesmo e independente, o resultado é um verdadeiro labirinto de lendas, tradições, doutrinas complexas e interpretações geradas pelas muitas escolas e seitas ao longo dos séculos. O que visava trazer uma solução simples para os complicados problemas da vida resultou num sistema religioso e filosófico além da compreensão para a maioria das pessoas. Em vez disso, o seguidor mediano do budismo simplesmente se preocupa com a adoração de ídolos e relíquias, deuses e demônios, espíritos e ancestrais, e em realizar muitos outros rituais e práticas que pouco têm a ver com o que Gautama, o Buda, ensinou. Obviamente, buscar a iluminação sem Deus não funciona.
Mais ou menos na mesma época em que Gautama, o Buda, procurava o caminho à iluminação, em outra parte do continente asiático viviam dois filósofos cujos conceitos vieram a influenciar milhões de pessoas. Eram Lao-tzu e Confúcio, os dois sábios venerados por gerações de chineses e outros. O que ensinaram eles, e como influenciaram a busca de Deus por parte da humanidade? É isto o que consideraremos no próximo capítulo.

Religião — como começou? (Parte 4) Taoísmo e Confucionismo — uma busca do caminho do céu

O taoísmo, o confucionismo e o budismo constituem as três principais religiões da China e do Extremo Oriente. Diferente do budismo, porém, o taoísmo e o confucionismo não se tornaram religiões universais, mas têm permanecido basicamente na China e onde quer que a cultura chinesa firmasse sua influência. Embora não existam dados oficiais do número atual de seus seguidores na China, o taoísmo e o confucionismo juntos têm dominado a vida religiosa de cerca de um quarto da população do mundo nos últimos 2.000 anos.
‘QUE cem flores desabrochem; que cem escolas contendam.’ Este ditado, tornado famoso por Mao Tse-tung da República Popular da China num discurso em 1956, era realmente uma paráfrase da expressão que os eruditos chineses têm usado para descrever a era chinesa do quinto ao terceiro séculos AEC, chamada de período dos Estados Combatentes. Nessa época, a poderosa dinastia Chou (c. 1122-256 AEC) se deteriorara num sistema de estados feudais vagamente ligados entre si, que se empenhavam em contínuas guerras, com resultante aflição para o povo.
O tumulto e o sofrimento causados pelas guerras enfraqueceram seriamente a autoridade da classe dominante tradicional. O povo não mais se dispunha a submeter-se aos caprichos e artimanhas da aristocracia e a sofrer silenciosamente as conseqüências. Em resultado, conceitos e aspirações há muito sufocados irromperam como “cem flores”. Diferentes escolas de pensamento promoveram seus conceitos sobre governo, lei, ordem social, conduta e ética, bem como sobre assuntos tais como agricultura, música e literatura, quais meios de restaurar uma medida de normalidade na vida. Vieram a ser conhecidas como as “cem escolas”. A maioria delas não produziu um efeito duradouro. Duas escolas, porém, se destacaram de tal maneira que têm influenciado a vida na China por mais de 2.000 anos. Eram as que por fim vieram a ser conhecidas como taoísmo e confucionismo.
Tao — O Que É?
Para entender por que o taoísmo e o confucionismo vieram a exercer tão profunda e duradoura influência sobre o povo chinês, bem como sobre o do Japão, da Coréia e de outras nações circunvizinhas, é necessário entender algo do conceito fundamental chinês do Tao. A palavra em si significa “caminho, estrada, ou vereda”. Por extensão, pode também significar “método, princípio, ou doutrina”. Para os chineses, a harmonia e o funcionamento ordeiro que perceberam no universo eram manifestações do Tao, uma espécie de vontade ou legislação divina que existe no universo e o regula. Em outras palavras, em vez de crerem num Deus Criador, que controla o universo, eles criam numa providência, uma vontade do céu, ou simplesmente o próprio céu como a causa de tudo.
Aplicando o conceito do Tao a assuntos humanos, os chineses criam que existe um modo natural e correto para realizar todas as coisas, e que tudo e todos têm seu devido lugar e sua devida função. Por exemplo, eles criam que, se o governante cumprisse seus deveres tratando o povo com justiça e cuidando dos rituais sacrificiais pertinentes ao céu, haveria paz e prosperidade para a nação. Similarmente, se as pessoas se dispusessem a buscar o caminho, ou Tao, e o seguissem, tudo seria harmonioso, pacífico e eficiente. Mas, se elas o contrariassem, ou lhe resistissem, o resultado seria o caos e o desastre.
Este conceito de seguir o Tao e não interferir em seu fluxo é um componente central do pensamento filosófico e religioso chinês. Pode-se dizer que o taoísmo e o confucionismo são duas expressões diferentes do mesmo conceito. O taoísmo faz uma abordagem mística, e, em sua forma original, defende a inação, a quietude e a passividade, evitando a sociedade e retornando à natureza. Seu conceito básico é que tudo sairá bem se as pessoas se acomodarem, nada fizerem, e permitirem que a natureza siga seu curso. O confucionismo, por outro lado, faz uma abordagem pragmática. Ensina que a ordem social será mantida se toda pessoa desempenhar o papel que lhe cabe e cumprir com o seu dever. Para isso, codifica todos os relacionamentos humanos e sociais — governante-súdito, pai-filho, marido-esposa e assim por diante — e fornece diretrizes para todos eles. Naturalmente, isto suscita as seguintes perguntas: Como é que vieram à existência esses dois sistemas? Quem foram seus fundadores? Como são praticados hoje? E o que fizeram para ajudar o homem na sua busca de Deus?
Taoísmo — Um Início Filosófico
Nos seus estágios primitivos, o taoísmo era mais uma filosofia do que uma religião. Seu fundador, Lao-tzu, estava descontente com o caos e o tumulto da época e buscou alívio evitando a sociedade e voltando-se para a natureza. Pouco se sabe sobre esse homem, que teria vivido no sexto século AEC, embora até mesmo isso seja incerto. Era comumente chamado de Lao-tzu, que significa “Velho Mestre”, ou “Velho”, porque, como diz a lenda, sua mãe grávida teve-o por tanto tempo no ventre que, quando nasceu, o cabelo dele já estava branco.
O único registro oficial sobre Lao-tzu aparece em Shih Chi (Registros Históricos), de Ssu-ma Ch’ien, um respeitado historiador palaciano do segundo e primeiro séculos AEC. Segundo essa fonte, o nome verdadeiro de Lao-tzu era Li Ur. Ele servia como escriturário nos arquivos imperiais em Loiang, China central. Contudo, mais significativamente, fornece o seguinte relato a respeito de Lao-tzu:
“Lao Tzu residiu em Chou a maior parte de sua vida. Quando previu a decadência de Chou, ele partiu dali para a fronteira. O funcionário da alfândega Yin Hsi disse: ‘Senhor, visto que te agrada aposentar-te, peço-te, por minha causa, que escrevas um livro.’ Diante disso, Lao Tzu escreveu um livro de duas partes, consistindo de cinco mil e tantas palavras, no qual considerou os conceitos do Caminho [Tao] e do Poder [Te]. Daí, partiu. Ninguém sabe onde ele morreu.”
Muitos eruditos duvidam da autenticidade desse relato. De qualquer modo, o livro produzido é conhecido como Tao Te Ching (geralmente traduzido por “O Clássico do Caminho e do Poder”), sendo considerado o principal texto do taoísmo. É escrito em versos tersos e crípticos, alguns deles com apenas três ou quatro palavras. Por isso, e também porque o significado de alguns caracteres mudou muito desde os dias de Lao-tzu, o livro está sujeito a muitas interpretações.
Breve Visão do “Tao Te Ching”
Em Tao Te Ching, Lao-tzu explica o Tao, o derradeiro caminho da natureza, e aplica-o a todos os níveis de atividade humana. Citamos a seguir de uma moderna tradução, para o inglês, de Gia-fu Feng e Jane English, para termos um relance de Tao Te Ching. Sobre o Tao, diz o seguinte:
“[Existia] algo formado misteriosamente,
Nascido antes do céu e da terra. . . .
Talvez seja a mãe de dez mil coisas.
Não sei o seu nome.
Chame-o de Tao.”
“Todas as coisas surgem do Tao.
São produzidas pela Virtude [Te].
São formadas da matéria.
São moldadas pelo ambiente.
Assim, todas as dez mil coisas respeitam o Tao
e dão honra à Virtude [Te].”
O que podemos deduzir dessas enigmáticas passagens? Que, para os taoístas, o Tao é uma misteriosa força cósmica responsável pelo universo material. O objetivo do taoísmo é procurar o Tao, deixar para trás o mundo, e tornar-se harmonioso com a natureza. Tal idéia se reflete também no conceito dos taoístas a respeito da conduta humana. Eis uma expressão desse ideal em Tao Te Ching:
“Melhor é parar pouco antes do que encher até o limite.
Afie demais a lâmina, e o corte logo ficará cego.
Ajunte uma grande quantidade de ouro e de jade, e ninguém poderá protegê-la.
Pretenda riquezas e títulos, e o desastre se seguirá.
Recolha-se quando o trabalho está terminado.
Este é o caminho do céu.”
Estes poucos exemplos mostram que, pelo menos de início, o taoísmo era basicamente uma escola de filosofia. Reagindo contra as injustiças, os sofrimentos, a devastação e a futilidade resultantes do cruel domínio do sistema feudal da época, os taoístas criam que o caminho para encontrar a paz e a harmonia era retornar à tradição dos antigos, antes de existirem reis e ministros que dominavam o povo. Seu ideal era levar a tranqüila vida rural, em união com a natureza. — Provérbios 28:15; 29:2.
O Segundo Sábio do TaoísmoA filosofia de Lao-tzu foi levada um passo adiante por Chuang Chou, ou Chuang-tzu, que significa “Mestre Chuang” (369-286 AEC), que era tido como o mais eminente sucessor de Lao-tzu. Em seu livro, Chuang Tzu, ele não apenas acrescentou detalhes ao Tao como também explicou os conceitos de yin e yang, originalmente desenvolvidos em I Ching. Em seu conceito, nada é realmente permanente ou absoluto, mas tudo se acha num estado de fluxo entre dois opostos. No capítulo “Dilúvio de Outono”, ele escreveu:
“Nada no universo é permanente, pois tudo vive apenas o tempo suficiente para morrer. Apenas Tao, que não tem começo nem fim, dura para sempre. . . . A vida pode ser comparada a um cavalo veloz cavalgando a plena velocidade — ele muda constante e continuamente, a cada fração de segundo. O que você deve fazer? O que você não deve fazer? Realmente não importa.”
Devido a essa filosofia de inércia, o conceito taoísta diz ser inútil alguém fazer algo para interferir naquilo que a natureza pôs em movimento. Mais cedo ou mais tarde, tudo retornará ao seu oposto. Não importa quão insuportável seja uma situação, ela logo melhorará. Não importa quão agradável seja uma situação, ela logo desaparecerá. (Em contraste, veja Eclesiastes 5:18, 19.) Este conceito filosófico da vida é exemplificado num dos sonhos de Chuang-tzu, pelo qual o povo mais se lembra dele:
“Certa vez Chuang Chou sonhou ser uma borboleta, uma borboleta que esvoaçava e adejava, feliz consigo mesma e vivendo a seu bel-prazer. Ela não sabia que era Chuang Chou. Subitamente acordou e ali estava ele, concreto e inconfundível Chuang Chou. Mas, ele não sabia se ele era Chuang Chou que sonhara ser uma borboleta ou se era uma borboleta sonhando ser Chuang Chou.”
Vê-se a influência dessa filosofia no estilo de poesia e de pintura desenvolvido por artistas chineses de gerações posteriores. No entanto, o taoísmo não permaneceria por muito tempo como filosofia passiva.
De Filosofia a Religião
Na sua tentativa de estar em comunhão com a natureza, os taoístas tornaram-se obsedados com a perenidade e a resiliência da natureza. Especulavam que, se a pessoa vivesse em harmonia com o Tao, ou o caminho da natureza, ela talvez pudesse de algum modo penetrar nos segredos da natureza e tornar-se imune ao dano físico, a doenças e até mesmo à morte. Embora Lao-tzu não insistisse nisso, certos trechos em Tao Te Ching parecem sugerir tal idéia. Por exemplo, o capítulo 16 diz: “Estar em comunhão com o Tao é eterno. E, embora o corpo morra, o Tao jamais perecerá.”
Chuang-tzu também contribuiu para tais especulações. Por exemplo, num diálogo em Chuang Tzu, um personagem mitológico perguntou a outro: “És de idade avançada, no entanto, tens a pele de criança. Como pode?” Este último respondeu: “Eu aprendi o Tao.” Sobre outro filósofo taoísta, Chuang-tzu escreveu: “Ora, Liehtse podia cavalgar no vento. Deslizava feliz na fresca brisa, continuaria por quinze dias antes de retornar. Entre os mortais que conseguem a felicidade, tal homem é uma raridade.”
Histórias assim acenderam a imaginação dos taoístas, e eles passaram a fazer experiências com meditação, dietas e exercícios respiratórios que supostamente podiam retardar a degeneração e a morte física. Logo começaram a circular lendas a respeito de seres imortais que podiam voar sobre as nuvens e aparecer e desaparecer a seu bel-prazer, vivendo em montanhas sagradas ou em ilhas remotas por incontáveis anos, sustentados pelo orvalho ou por frutas mágicas. A história chinesa conta que em 219 AEC, o imperador Ch’in, Shih Huang-Ti enviou uma frota de navios com 3.000 meninos e meninas para encontrar a lendária ilha de P’eng-lai, a morada dos imortais, para trazer de volta a erva da imortalidade. Desnecessário é dizer, eles não retornaram com o elixir, mas, diz a tradição, povoaram as ilhas que vieram a ser conhecidas como Japão.
Durante a dinastia Hã (206 AEC–220 EC), as práticas mágicas do taoísmo atingiram um novo apogeu. Consta que o imperador Wu Ti, embora promovesse o confucionismo como ensino oficial do Estado, sentia-se muito atraído ao conceito taoísta da imortalidade física. Entusiasmou-se especialmente com as engendradas ‘pílulas da imortalidade’ da alquimia. No conceito taoísta, a vida surge quando as forças opostas yin e yang (feminina e masculina) se unem. Assim, fundindo chumbo (escuro, ou yin) com mercúrio (claro, ou yang), os alquimistas estariam imitando os processos da natureza, e o produto, pensavam eles, seria uma pílula da imortalidade. Os taoístas também desenvolveram exercícios tipo ioga, técnicas de controle da respiração, restrições dietéticas e práticas sexuais que alegadamente fortaleciam a energia vital da pessoa e prolongavam a vida. Sua parafernália incluía talismãs mágicos que, segundo se dizia, tornavam a pessoa invisível e invulnerável a armas, ou a capacitavam a andar sobre água ou a voar no espaço. Tinham também selos mágicos, usualmente contendo o símbolo yin-yang, que eram afixados em prédios e sobre o vão de portas para repelir maus espíritos e feras.
Por volta do segundo século EC, o taoísmo tornara-se organizado. Um certo Chang Ling, ou Chang Tao-ling, fundou uma sociedade taoísta secreta na China ocidental e praticava curas mágicas e alquimia. Visto que de cada membro se cobrava uma taxa de cinco celamins de arroz, seu movimento ficou conhecido como Taoísmo dos Cinco-Celamins-de-Arroz (wu-tou-mi tao). Afirmando ter recebido uma revelação pessoal de Lao-tzu, Chang tornou-se o primeiro “mestre celestial”. Por fim, afirmou-se que ele conseguiu fazer o elixir da vida e que ascendeu vivo ao céu, montado num tigre, a partir do monte Lung-hu (Monte do Tigre-Dragão), na província de Kiangsi. Com a presença de Chang Tao-ling ali teve início uma sucessão, de séculos de duração, de “mestres celestiais” taoístas, cada qual sendo alegadamente uma reencarnação de Chang.
Enfrentando o Desafio do BudismoPor volta do sétimo século, durante a dinastia T’ang (618-907 EC), o budismo fazia incursões na vida religiosa chinesa. Em contramedida, o taoísmo promovia a si mesmo como religião com raízes chinesas. Lao-tzu foi deificado, e os escritos taoístas foram canonizados. Construíram-se templos, mosteiros e conventos, e fundaram-se ordens de monges e monjas, mais ou menos no estilo budista. Além disso, o taoísmo adotou também em seu próprio panteão muitos dos deuses, deusas, fadas e imortais do folclore chinês, tais como os Oito Imortais (Pa Hsien), o deus do lar (Tsao Shen), deuses da cidade (Ch’eng Huang), e guardiães da porta (Men Shen). O resultado foi uma fusão de elementos do budismo, superstições tradicionais, espiritismo e adoração de ancestrais. — 1 Coríntios 8:5.
Com o tempo, o taoísmo lentamente se degenerou num sistema de idolatria e superstição. Cada pessoa simplesmente adorava seus deuses e deusas preferidos nos templos locais, pedindo-lhes proteção contra o mal e ajuda para ganhar fortuna terrena. Os sacerdotes eram contratados para realizar funerais, selecionar locais propícios para sepulturas, casas e negócios, comunicar-se com os mortos, afastar maus espíritos e fantasmas, celebrar festividades e realizar vários outros rituais. Assim, o que começara como escola de filosofia mística se transformou numa religião profundamente atolada na crença em espíritos imortais, inferno de fogo e semideuses — conceitos tirados do estagnado reservatório de crenças falsas da antiga Babilônia.
Outro Eminente Sábio da China
Ao passo que traçamos a ascensão, o desenvolvimento e a decadência do taoísmo, devemos lembrar-nos de que se tratava de apenas uma das “cem escolas” que floresceram na China durante o período dos Estados Combatentes. Outra escola que por fim alcançou destaque, de fato, predomínio, foi o confucionismo. Mas, por que o confucionismo alcançou tal destaque? De todos os sábios chineses, Confúcio é, sem dúvida, o mais conhecido fora da China, mas, quem realmente era ele? E o que ensinava?
A respeito de Confúcio, recorreremos novamente aos Shih Chi (Registros Históricos) de Ssu-ma Ch’ien. Em contraste com o breve sumário sobre Lao-tzu, encontramos uma extensa biografia de Confúcio. Apresentamos a seguir alguns detalhes pessoais citados de uma tradução (para o inglês) do erudito chinês Lin Yutang:
“Confúcio nasceu na cidade de Tsou, no condado de Ch’angping, no ducado de Lu. . . . [Sua mãe] orou na colina Nich’iu e gerou Confúcio em resposta à sua oração, no vigésimo segundo ano do duque Hsiang, de Lu (551 AC). Houve uma percebível convolução na sua cabeça por ocasião de seu nascimento, e foi por isso que ele foi chamado de ‘Ch’iu’ (que significa “colina”). Seu nome literário era Chungni, e seu sobrenome era K’ung.”
Pouco depois de seu nascimento, seu pai faleceu, mas, sua mãe, embora pobre, conseguiu dar-lhe uma educação adequada. O menino desenvolveu profundo interesse em história, poesia e música. Segundo Os Analectos, um dos Quatro Livros do confucionismo, ele devotou-se a estudos eruditos ao atingir 15 anos de idade. Aos 17, deram-lhe um pequeno cargo governamental em seu estado nativo, Lu.
Sua situação financeira evidentemente melhorou, de modo que ele se casou aos 19 anos, e teve um filho no ano seguinte. Mas, quando beirava os 25, sua mãe morreu. Isto evidentemente o afetou profundamente. Sendo meticuloso cumpridor de tradições antigas, Confúcio retirou-se da vida pública e pranteou sua mãe junto à sepultura por dois anos e três meses, dando assim aos chineses um clássico exemplo de devoção filial.
O Mestre Confúcio
Depois disso, Confúcio deixou a família e assumiu a ocupação de mestre itinerante. Ele ensinava música, poesia, literatura, educação cívica, ética, ciência, ou o que quer que disso existisse naquele tempo. Deve ter-se tornado bastante famoso, pois, segundo se diz, chegou a ter numa ocasião nada menos de 3.000 alunos.
No Oriente, Confúcio é reverenciado principalmente como mestre por excelência. De fato, a inscrição em sua sepultura em Ch’ü-fou, na província de Xantung, chama-o simplesmente de “Antigo Santíssimo Mestre”. Certo escritor ocidental descreve assim o seu método de ensino: “Ele caminhava de ‘lugar em lugar acompanhado dos que absorviam seus conceitos de vida’. Sempre que a jornada fosse mais distante ele ia de carro de boi. O passo lento do animal permitia que seus pupilos o acompanhassem a pé, e é evidente que o assunto de suas palestras não raro se inspirava em eventos que ocorriam a caminho.” É interessante que Jesus, numa época posterior, e independentemente, usou um método similar.
O que fez de Confúcio um prestigiado mestre entre os orientais, foi, sem dúvida, o fato de que ele mesmo era bom estudante, especialmente de História e Ética. “As pessoas sentiam-se atraídas a Confúcio, não tanto por ser ele o homem mais sábio de sua época, mas porque era o mais culto erudito, o único de seus dias que podia ensiná-los a respeito dos livros antigos e da antiga erudição”, escreveu Lin Yutang. Indicando esse amor ao aprendizado como talvez a razão fundamental do triunfo do confucionismo sobre outras escolas de pensamento, Lin resumiu o assunto do seguinte modo: “Os mestres confucionistas tinham algo definido a ensinar e os discípulos confucionistas tinham algo definido a aprender, a saber, aprendizado histórico, ao passo que as outras escolas eram obrigadas a propalar as suas próprias opiniões.”
“É o Céu Que Me Conhece!”
Apesar de seu êxito como mestre, Confúcio não considerou o ensino como carreira vitalícia. Ele achava que seus conceitos sobre ética e moral poderiam salvar o mundo atribulado de seus dias, se tão-somente os governantes os aplicassem por contratar a ele ou a seus discípulos em seus governos. Para isso, ele e um pequeno grupo de discípulos mais íntimos deixaram seu estado natal, Lu, e passaram a viajar de estado em estado tentando encontrar o sábio governante que adotasse seus conceitos sobre governo e ordem social. Em que resultou? Shih Chi diz: “Por fim ele deixou Lu, foi abandonado em Ch’i, expulso de Sung e Wei, sofreu penúria entre Ch’en e Ts’ai.” Depois de 14 anos de jornada, ele voltou a Lu, desapontado, mas não combalido.
No restante de seus dias, ele devotou-se à obra literária e ao ensino. Embora sem dúvida lamentasse a sua obscuridade, ele disse: “Não murmuro contra o Céu. Não resmungo contra o homem. Dedico-me aos meus estudos aqui na terra, e estou em contato com o Céu acima. É o Céu que me conhece!” Por fim, no ano de 479 AEC, morreu aos 73 anos de idade.
A Essência dos Conceitos Confucionistas
Embora Confúcio se destacasse como erudito e mestre, sua influência de modo algum se limitava aos círculos acadêmicos. De fato, a meta de Confúcio não era apenas ensinar regras de conduta ou de moral, mas também restaurar a paz e a ordem na sociedade, que, na época, estava dilacerada pelas constantes guerras entre os senhores feudais. Para atingir tal alvo, Confúcio ensinava que todos, do imperador ao homem comum, tinham de aprender qual o papel que se esperava que cada um desempenhasse na sociedade e viver concordemente.
No confucionismo, esse conceito é conhecido como li, que significa decoro, cortesia, a ordem das coisas, e, por extensão, ritual, cerimônia e reverência. Respondendo à pergunta: “O que é esse grande li?”, Confúcio explicou o seguinte:
“De todas as coisas pelas quais as pessoas vivem, li é a maior. Sem li, não sabemos como conduzir uma adequada adoração dos espíritos do universo; ou como estabelecer a correta condição do rei e dos ministros, do governante e dos governados, e dos anciãos e dos mais novos; ou como estabelecer o relacionamento moral entre os sexos, entre pais e filhos e entre irmãos; ou como distinguir os diferentes graus de relacionamento na família. É por isso que um cavalheiro tem li em tão alta estima.”
Ora, li é a regra de conduta pela qual um verdadeiro cavalheiro (chün-tzu, às vezes traduzido por “homem superior”) pauta todas as suas relações sociais. Quando todos se esforçam em fazer isso, “tudo se endireita na família, no estado e no mundo”, disse Confúcio, e é neste caso que se pratica o Tao, ou o caminho do céu. Mas, como é que se expressa o li? Isto nos leva a outro dos conceitos centrais do confucionismo — jen (pronuncia-se ren), humanitarismo ou amor pelos outros.
Ao passo que li enfatiza a restrição através de regras exteriores, jen lida com a natureza humana, ou a pessoa interior. O conceito confuciano, especialmente conforme expresso pelo principal discípulo de Confúcio, Mêncio, é que a natureza humana é basicamente boa. Assim, a solução para todos os males sociais jaz no auto-aperfeiçoamento, e isso começa com educação e conhecimento. O capítulo inicial de The Great Learning (O Grande Aprendizado), diz:
“Quando se alcança o conhecimento verdadeiro, a vontade se torna sincera; quando a vontade é sincera, o coração é retificado . . . ; quando o coração é retificado, aperfeiçoa-se a vida pessoal; quando se aperfeiçoa a vida pessoal, a vida familiar é ajustada; quando a vida familiar é ajustada, a vida nacional é ordeira; e quando a vida nacional é ordeira, há paz neste mundo. Do imperador aos cidadãos comuns, todos têm de considerar o aprimoramento da vida pessoal como raiz ou fundação.”
Vemos assim que, segundo Confúcio, a observância de li habilita as pessoas a se comportarem corretamente em todas as situações, e o desenvolvimento de jen faz com que tratem bondosamente todas as pessoas. O resultado, teoricamente, é paz e harmonia na sociedade. O ideal confuciano, baseado nos princípios de li e jen, pode ser resumido da seguinte maneira:
“Bondade no pai, devoção filial no filho
Fidalguia no irmão mais velho, humildade e respeito no mais novo
Comportamento justo no marido, obediência na esposa
Consideração humana nos anciãos, deferência nos mais novos
Benevolência nos governantes, lealdade nos ministros e nos súditos.”
Tudo isso ajuda a explicar por que a maioria do povo chinês, e mesmo outros orientais, dão tanta ênfase a laços familiares, a ser diligente, à educação e a conhecer e agir segundo a posição da pessoa. Para o bem ou para o mal, tais conceitos confucianos têm sido cravados profundamente na consciência chinesa através de séculos de inculca.
O Confucionismo Vira Culto Estatal
Com a ascensão do confucionismo, o período das “cem escolas” chegou a um fim. Os imperadores da dinastia Han encontraram nos ensinamentos confucianos de lealdade ao governante justamente a fórmula de que necessitavam para solidificar o poder do trono. Sob o imperador Wu Ti, a quem já nos referimos em conexão com o taoísmo, o confucionismo foi elevado à condição de culto estatal. Apenas os versados nos clássicos confucianos eram selecionados para funcionários governamentais, e quem quer que almejasse entrar para o serviço governamental tinha de passar por exames a nível nacional baseados nos clássicos confucianos. Ritos e rituais confucianos tornaram-se a religião do palácio real.
Essa mudança de situação contribuiu muito para elevar a posição de Confúcio na sociedade chinesa. Os imperadores Han iniciaram a tradição de oferecer sacrifícios no túmulo de Confúcio. Conferiram-se-lhe títulos honoríficos. Daí, em 630 EC, o imperador T’ai Tsung, da dinastia T’ang, ordenou que em toda província e condado do império se erigisse um templo estatal a Confúcio, e que se oferecessem sacrifícios regularmente. Para todos os efeitos, Confúcio foi elevado à condição de deus, e o confucionismo tornou-se uma religião dificilmente distinguível do taoísmo ou do budismo.
O Legado da Sabedoria do Oriente
Desde o fim do governo de dinastias na China, em 1911, o confucionismo e o taoísmo têm sido muito criticados, até mesmo perseguidos. O taoísmo foi desacreditado por causa de suas práticas mágicas e supersticiosas. E o confucionismo tem sido rotulado de feudalista, que promove uma mentalidade escrava, para manter as pessoas, em especial as mulheres, em sujeição. Não obstante, apesar dessas denúncias oficiais, os conceitos básicos dessas religiões estão tão profundamente arraigados na mentalidade chinesa que ainda exercem uma forte influência sobre muitas pessoas.
Por exemplo, sob o cabeçalho “Ritos Religiosos Chineses São Raros em Beijing [Pequim] mas Florescem nas Regiões Costeiras”, o jornal canadense Globe and Mail disse, em 1987, que, depois de uns 40 anos de governo ateísta na China, os ritos fúnebres, ofícios em templos e muitas práticas supersticiosas ainda são comuns nas áreas rurais. “A maioria das aldeias tem um fengshui, em geral um residente de mais idade que sabe ler as forças do vento (feng) e da água (shui) para determinar a mais propícia localização para tudo, desde a sepultura ancestral à nova casa ou aos móveis da sala de estar”, diz o artigo.
Em outras partes, o taoísmo e o confucionismo estão presentes onde quer que a cultura tradicional chinesa sobreviva. Em Formosa, certo homem que afirma ser descendente de Chang Tao-ling preside como “mestre celestial” com poder de ordenar sacerdotes taoístas (Tao Shih). A popular deusa Matsu, tida como “Santa Mãe no Céu”, é adorada como santa padroeira da ilha e dos navegantes e pescadores. Quanto ao povo, ele se preocupa mais em apresentar oferendas e sacrifícios aos espíritos dos rios, das montanhas e das estrelas, às deidades padroeiras de todos os ofícios e aos deuses da saúde, da boa sorte e da riqueza.
Que dizer do confucionismo? Seu papel como religião tem sido reduzido à condição de monumento nacional. Em Ch’ü-fou, na China, a terra natal de Confúcio, o Estado mantém o Templo de Confúcio e locais históricos da família como atrações turísticas. Ali, segundo a revista China Reconstructs, fazem-se apresentações para “encenar um ritual de adoração de Confúcio”. E em Cingapura, Formosa, Hong Kong e outros lugares da Ásia oriental, as pessoas ainda comemoram o natalício de Confúcio.
O confucionismo e o taoísmo são exemplos de que um sistema baseado na sabedoria e no raciocínio humano, independente de quão lógico e bem-intencionado seja, por fim falha na busca do Deus verdadeiro. Por quê? Porque deixa fora um elemento essencial, a saber, a vontade e os requisitos de um Deus pessoal. O confucionismo recorre à natureza humana como a força motivadora para realizar o bem, e o taoísmo recorre à própria natureza. Mas, trata-se de uma confiança mal direcionada, pois equivale simplesmente a adorar coisas criadas em vez de ao Criador. — Salmo 62:9; 146:3, 4; Jeremias 17:5.
Por outro lado, as tradições de adorar ancestrais e ídolos, a reverência por um céu cósmico e a veneração de espíritos na natureza, bem como os ritos e rituais relacionados com eles, ficaram tão profundamente arraigados na maneira de pensar chinesa que são aceitos como sendo a incontestável verdade. Não raro é muito difícil falar com um chinês sobre um Deus ou Criador pessoal, por ser este um conceito tão alheio para ele. — Romanos 1:20-25.
É inegável que a natureza está repleta de grandes maravilhas e sabedoria, e que os seres humanos são dotados das maravilhosas faculdades da razão e da consciência. Mas, conforme destacado no capítulo sobre o budismo, as maravilhas que vemos no mundo natural têm levado mentes refletidas a concluir que deve existir um Projetista ou Criador. Sendo assim, então, não é lógico que o nosso empenho deve ser buscar o Criador? De fato, o Criador nos convida a fazer isso: “Levantai ao alto os vossos olhos e vede. Quem criou estas coisas? Foi Aquele que faz sair o exército delas até mesmo por número, chamando a todas elas por nome.” (Isaías 40:26) Fazendo isso, chegaremos a conhecer não só quem é o Criador, isto é, Jeová Deus, mas também o que ele tem em reserva para o nosso futuro.
Além do budismo, do confucionismo e do taoísmo, que têm desempenhado um importante papel na vida religiosa das pessoas do Oriente, existe ainda outra religião, exclusiva do povo do Japão — o xintoísmo. Em que sentido é diferente? Qual é a sua origem? Conduziu as pessoas ao Deus verdadeiro? Veremos isso no próximo capítulo.
Os Quatro Livros e os Cinco Clássicos de Confúcio
Os Quatro Livros
1. O Grande Aprendizado (Ta Hsüeh), a base da educação de um cavalheiro, o primeiro texto que os meninos estudavam na escola na China antiga.
2. A Doutrina do Meio (Chung Yung), um tratado sobre o desenvolvimento da natureza humana através da moderação.
3. Os Analectos (Lun Yü), uma coletânea de dizeres de Confúcio, considerada a principal fonte do pensamento confuciano.
4. O Livro de Mêncio (Meng-tzu), escritos e dizeres do maior discípulo de Confúcio, Meng-tzu, ou Mêncio.
Os Cinco Clássicos1. O Livro de Poesia (Shih Ching), 305 poemas fornecendo um quadro do cotidiano nos primitivos tempos Chou (1000-600 AEC).
2. O Livro de História (Shu Ching), abrangendo 17 séculos de história chinesa começando com a dinastia Shang (1766-1122 AEC).
3. O Livro de Mutações (I Ching), um livro de adivinhação, baseado em interpretações de 64 possíveis combinações de seis linhas inteiras ou tracejadas.
4. O Livro dos Ritos (Li Chi), uma coletânea de regras sobre cerimônias e rituais.
5. Anais da Primavera e Outono (Ch’un Ch’iu), uma história do estado natal de Confúcio, Lu, abrangendo de 721-478 AEC.