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O SHOW DO COMÉRCIO DO CAMPINARTE

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Religião — como começou? (Parte 10) A reforma — a busca toma um novo rumo

“A VERDADEIRA tragédia da igreja medieval é que ela deixou de acompanhar os tempos. . . . Longe de ser progressiva, longe de prover liderança espiritual, ela foi retrógrada e decadente, corrupta em todos os seus setores.” Assim diz o livro A História da Reforma (em inglês) sobre a poderosa Igreja Católica Romana, que dominou a maior parte da Europa entre o 5.° século e o século 15 da EC.
Como foi que a Igreja de Roma caiu de sua posição todo-poderosa tornando-se ‘decadente e corrupta’? Como foi que o papado, que dizia ser a sucessão apostólica, fracassou em prover “liderança espiritual”? E o que resultou desse fracasso? Para acharmos as respostas, temos de examinar brevemente que tipo de igreja ela deveras se tornara, e que papel desempenhou em ajudar a humanidade na busca do Deus verdadeiro.

A Igreja em Declínio
Em fins do século 15, a Igreja de Roma, com paróquias, mosteiros e conventos espalhados por todos os seus domínios, tornara-se a maior proprietária de terras de toda a Europa. Consta que ela era dona de nada menos que a metade das terras na França e na Alemanha, e dois quintos ou mais na Suécia e na Inglaterra. O resultado? O “esplendor de Roma aumentou imensuravelmente em fins dos anos 1400 e início dos 1500, e sua importância política prosperou temporariamente”, diz o livro Uma História da Civilização (em inglês). Toda essa grandeza, porém, tinha um preço, e, para mantê-la, o papado teve de encontrar novas fontes de renda. Descrevendo os vários métodos empregados, o historiador Will Durant escreveu:
“Cada delegado eclesiástico era solicitado a enviar à Cúria Papal — escritórios de administração do papado — metade da renda de seu cargo para o primeiro ano (‘anatas’), e daí em diante um décimo ou dízimo por ano. Um novo bispo tinha de pagar ao papa uma quantia importante [pelo] pálio — tira de lã branca que servia de confirmação e insígnia de sua autoridade. Na morte de um cardeal, arcebispo, bispo ou abade, suas propriedades particulares revertiam ao papado. . . . Todo julgamento ou favor conseguido da Cúria exigia um presente como confirmação, e às vezes, o julgamento era ditado pelo presente.”
As grandes somas que ano após ano afluíam aos cofres papais acabaram levando a muitos abusos e corrupção. Tem-se dito que ‘nem mesmo um papa pode tocar em piche sem sujar os dedos’, e a história da Igreja desse período teve o que certo historiador chamou de “uma sucessão de papas bem mundanos”. Entre estes havia Sisto IV (papa de 1471-84), que gastou enormes somas para construir a Capela Sistina, que leva seu próprio nome, e para enriquecer seus muitos sobrinhos e sobrinhas; Alexandre VI (papa de 1492-1503), o infame Rodrigo Bórgia, que abertamente reconhecia a seus filhos ilegítimos e dava-lhes cargos; e Júlio II (papa de 1503-13), sobrinho de Sisto IV, que era mais propenso a guerras, política e arte do que a seus deveres eclesiásticos. Foi com plena justificação que o erudito católico holandês, Erasmo, escreveu em 1518: “A falta de vergonha da Cúria Romana atingiu o clímax.”
A corrupção e a imoralidade não se limitavam ao papado. Costumava-se dizer na época: “Se quer estragar seu filho, faça dele um sacerdote.” Registros daquele tempo confirmam isso. Segundo Durant, na Inglaterra, entre as “acusações de incontinência [sexual] registradas em 1499, . . . os faltosos clericais perfaziam uns 23 por cento do total, embora o clero fosse talvez menos de 2 por cento da população. Alguns confessores pediam favores sexuais a suas penitentes. Milhares de padres tinham concubinas; na Alemanha, quase todos.” (Contraste com 1 Coríntios 6:9-11; Efésios 5:5.) Os deslizes morais alcançaram também outras áreas. Consta que certo espanhol da época se queixou: “Vejo que dificilmente podemos obter algo dos ministros de Cristo sem ser por dinheiro; no batismo, dinheiro . . . no casamento, dinheiro, para confissão, dinheiro — sim, nem mesmo a extrema unção se consegue sem dinheiro! Eles não tocam os sinos sem dinheiro, não realizam funerais religiosos sem dinheiro; parece que o Paraíso está vedado aos que não têm dinheiro.” — Contraste com 1 Timóteo 6:10.

Resumindo a situação da Igreja Romana no início do século 16, citamos as palavras de Maquiavel, famoso filósofo italiano daquela época:

“Se a religião do cristianismo tivesse sido conservada segundo os preceitos do Fundador, o Estado e a comunidade da cristandade seriam muito mais unidos e felizes do que o são. Nem pode haver maior prova de sua decadência do que o fato de que quanto mais perto estão as pessoas da Igreja Romana, cabeça de sua religião, menos religiosas são.”


Primitivos Empenhos de Reforma
A crise na Igreja foi notada não apenas por homens como Erasmo e Maquiavel, mas também pela própria Igreja. Convocavam-se concílios da Igreja para considerar algumas das queixas e abusos, mas sem resultados duradouros. Os papas, refestelando-se em poder e glória pessoais, desestimulavam quaisquer empenhos reais de reforma.
Tivesse a Igreja levado mais a sério a limpeza interna, talvez não teria havido Reforma. Mas, do jeito como era, começaram-se a ouvir clamores por reforma de dentro e de fora da igreja. No Capítulo 11 já mencionamos os valdenses e os albigenses. Embora tivessem sido condenados como hereges e impiedosamente esmagados, eles haviam despertado no povo um descontentamento com os abusos do clero católico e suscitado o desejo de um retorno à Bíblia. Tais sentimentos encontraram expressão através de vários primitivos Reformadores.

Protestos de Dentro da IgrejaMuitas vezes chamado de “estrela da manhã da Reforma”, João Wycliffe (1330?-84) era sacerdote católico e professor de teologia em Oxford, Inglaterra. Bem ciente dos abusos na Igreja, ele escreveu e pregou contra coisas tais como corrupção nas ordens monásticas, taxação papal, a doutrina da transubstanciação (a afirmação de que o pão e o vinho usados na Missa literalmente se transformam no corpo e no sangue de Jesus Cristo), a confissão, e o envolvimento da Igreja em assuntos temporais.
Wycliffe era especialmente franco quanto à negligência da Igreja em ensinar a Bíblia. Disse ele certa vez: “Queira Deus que toda paróquia de igreja neste país tenha uma boa Bíblia e boas explicações do evangelho, e que os sacerdotes os estudem bem, e que realmente ensinem o evangelho e os mandamentos de Deus ao povo!” Com esse fim, Wycliffe, nos últimos anos de sua vida, dedicou-se à tarefa de traduzir a Bíblia Vulgata latina para o inglês. Com a ajuda de seus associados, especialmente Nicolau de Hereford, ele produziu a primeira Bíblia completa no idioma inglês. Esta foi, sem dúvida, a maior contribuição de Wycliffe à causa da busca de Deus, por parte da humanidade.
Os escritos de Wycliffe e partes da Bíblia foram distribuídos por toda a Inglaterra por um grupo de pregadores muitas vezes chamados de “Sacerdotes Pobres” porque iam de vestes simples, descalços e sem bens materiais. Eram também desdenhosamente chamados de Lolardos, que provém da palavra do holandês médio Lollaerd, ou “aquele que murmura orações e hinos”. (Dicionário de Frases e Fábulas, de Brewer [em inglês]) “Em poucos anos, o seu número era considerável”, diz o livro The Lollards (Os Lolardos). “Calculou-se que pelo menos um quarto da nação estava real ou supostamente inclinado em favor desses sentimentos.” Tudo isso, naturalmente, não passou despercebido pela Igreja. Devido à sua notoriedade entre as classes dominante e erudita, permitiu-se que Wycliffe morresse em paz no último dia de 1384. Os seus seguidores foram menos afortunados. Durante o reinado de Henrique IV, da Inglaterra, eles foram tachados de hereges e muitos deles foram presos, torturados ou queimados vivos.
Fortemente influenciado por João Wycliffe havia o boêmio (tcheco) João Huss (1369?-1415), também sacerdote católico e reitor da Universidade de Praga. Como Wycliffe, Huss pregou contra a corrupção da Igreja Romana e frisou a importância de ler a Bíblia. Isto prontamente trouxe sobre ele a ira da hierarquia. Em 1403, as autoridades ordenaram-lhe que parasse de pregar as idéias antipapais de Wycliffe, cujos livros também queimaram publicamente. Huss, porém, passou a escrever algumas das mais pungentes acusações contra as práticas da igreja, incluindo a venda de indulgências. Ele foi condenado e excomungado em 1410.
Huss não transigia no seu apoio à Bíblia. “Rebelar-se contra um papa faltoso é obedecer a Cristo”, escreveu. Ensinou também que a verdadeira igreja, longe de ser o papa e a instituição romana, “é o conjunto de todos os eleitos e o corpo místico de Cristo, cuja cabeça é Cristo; e a noiva de Cristo, a quem à base de seu grande amor ele remiu com o seu próprio sangue”. (Compare com Efésios 1:22, 23; 5:25-27.) Por tudo isso, ele foi julgado no Concílio de Constança e condenado como herege. Dizendo “ser melhor morrer bem do que viver mal”, ele recusou-se a retratar-se e foi queimado vivo na estaca, em 1415. O mesmo concílio ordenou também que os ossos de Wycliffe fossem desenterrados e queimados, embora já estivesse morto e sepultado há mais de 30 anos!
Outro Reformador primordial foi o monge dominicano Girolamo Savonarola (1452-98) do mosteiro de São Marcos, em Florença, Itália. Embalado pelo espírito da Renascença italiana, Savonarola falou contra a corrupção tanto na Igreja como no Estado. Afirmando ter como base as Escrituras, bem como visões e revelações que dizia ter recebido, ele tentou fundar um estado cristão, ou ordem teocrática. Em 1497, o papa excomungou-o. No ano seguinte, ele foi preso, torturado e enforcado. Suas últimas palavras foram: “Meu Senhor morreu pelos meus pecados; não devia eu gratamente dar esta pobre vida por ele?” Seu corpo foi queimado e as cinzas lançadas no rio Arno. Apropriadamente, Savonarola autodenominou-se “precursor e sacrifício”. Poucos anos depois, a Reforma irrompeu com plena força em toda a Europa.

Uma Casa Dividida
Quando a tormenta da Reforma finalmente irrompeu, ela destroçou a casa religiosa da cristandade na Europa Ocidental. Tendo estado sob o domínio praticamente total da Igreja Católica Romana, ela tornou-se então uma casa dividida. O sul da Europa — Itália, Espanha, Áustria e partes da França — permaneceu na maior parte católico. O resto acomodou-se em três principais divisões: Luterana, na Alemanha e Escandinávia; Calvinista (ou Reformada) na Suíça, Países-Baixos, Escócia e partes da França; e Anglicana na Inglaterra. Entremeados entre estas havia grupos menores, porém mais radicais, primeiro os anabatistas e mais tarde os menonitas, huteritas e puritanos, que com o tempo levaram as suas crenças para a América do Norte.
No decorrer dos anos, essas principais divisões fragmentaram-se adicionalmente em centenas de denominações atuais — Presbiteriana, Episcopal, Metodista, Batista, Congregacional, apenas para mencionar algumas. A cristandade deveras se tornou uma casa dividida. Como foi que ocorreram tais divisões?

Lutero e Suas Teses

Se necessário fosse indicar um ponto inicial decisivo na Reforma protestante, este seria 31 de outubro de 1517, quando o monge agostiniano Martinho Lutero (1483-1546) pregou as suas 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, no estado alemão da Saxônia. Contudo, o que provocou esse dramático evento? Quem era Martinho Lutero? E contra o que protestou?

Como Wycliffe e Huss, antes dele, Martinho Lutero era um monge erudito. Era também doutor em teologia e professor de estudos bíblicos na Universidade de Wittenberg. Lutero ficou famoso por sua compreensão da Bíblia. Embora tivesse fortes opiniões sobre o assunto da salvação, ou justificação, por meio de fé em vez de obras ou de penitência, ele não intencionava romper com a igreja de Roma. De fato, a emissão de suas teses foi sua reação a um incidente específico e não uma revolta planejada. Ele protestava contra a venda de indulgências.
Nos dias de Lutero, as indulgências papais eram publicamente vendidas não apenas em favor dos vivos mas também em favor dos mortos. “Assim que a moeda no cofre cai, a alma do Purgatório sai”, dizia um ditado popular. Para o povo, uma indulgência era quase que uma apólice de seguro contra a punição por qualquer pecado, e o arrependimento saía pela tangente. “Em toda a parte”, escreveu Erasmo, “vende-se a remissão do tormento purgatorial; não é apenas vendida, mas forçada aos que se recusam a comprá-la”.
Em 1517, João Tetzel, um frade dominicano, foi a Jüterbog, perto de Wittenberg, para vender indulgências. O dinheiro arrecadado visava em parte financiar a reconstrução da Basílica de São Pedro, em Roma. Visava também ajudar Alberto de Brandenburgo a repor o dinheiro que tomara emprestado para pagar à Cúria Romana pelo cargo de arcebispo de Mainz. Tetzel usava toda a sua perícia de vendedor, e o povo afluía a ele. Lutero indignou-se, e recorreu ao que lhe parecia ser a maneira mais rápida de expressar publicamente a sua opinião sobre esse espetáculo circense — pregar 95 pontos de discórdia na porta da igreja.
Lutero chamou suas 95 teses de Disputa Para Esclarecer o Poder das Indulgências. Seu objetivo não era tanto desafiar a autoridade da igreja, como apontar os excessos e abusos da venda de indulgências papais. Pode-se ver isto das seguintes teses:

“O papa não tem a intenção nem o poder de remir qualquer penalidade, exceto as que ele impôs por sua própria autoridade. . . .

Por conseguinte, quando o papa fala da plena remissão de todas as penalidades, isso não significa realmente de todas, mas apenas daquelas impostas por ele mesmo. . . .

Todo cristão que sente verdadeira compunção tem direito à plena remissão da punição e da culpa, mesmo sem cartas de indulto.”

Ajudado pela então recém-inventada imprensa, essas explosivas idéias não demoraram a atingir outras partes da Alemanha — e Roma. O que começou como debate acadêmico sobre a venda de indulgências logo se transformou numa controvérsia sobre assuntos de fé e autoridade papal. De início, a Igreja de Roma envolveu Lutero em debate e ordenou-lhe que se retratasse. Quando Lutero se recusou, tanto o poder eclesiástico como o político foram acionados contra ele. Em 1520 o papa emitiu uma bula, ou edito, que proibia Lutero de pregar e ordenou que seus livros fossem queimados. Em desafio, Lutero queimou a bula papal em público. O papa excomungou-o em 1521.
Mais tarde naquele ano, Lutero foi convocado à dieta, ou assembléia, em Worms. Foi julgado pelo imperador do Santo Império Romano, Carlos V, um católico fanático, bem como pelos seis eleitores de colegiado dos estados alemães, e por outros líderes e dignitários, religiosos e seculares. Ao ser novamente pressionado a retratar-se, Lutero fez a sua famosa declaração: “A menos que eu me convença pelas Escrituras e pela razão evidente . . . não posso e não vou retratar-me de coisa alguma, pois ir contra a consciência não é direito nem seguro. Que Deus me ajude. Amém.” Conseqüentemente, o imperador declarou-o fora-da-lei. Contudo, o governante de seu próprio estado alemão, o eleitor Frederico de Saxônia, veio em seu auxílio e ofereceu-lhe abrigo no castelo de Wartburg.
Essas medidas, porém, não impediram a disseminação das idéias de Lutero. Por dez meses no refúgio de Wartburg, Lutero dedicou-se a produzir escritos e à tradução da Bíblia. Traduziu as Escrituras Gregas para o alemão, do texto grego de Erasmo. As Escrituras Hebraicas vieram mais tarde. A Bíblia de Lutero revelou ser justamente o que o povo necessitava. Consta que “foram vendidos cinco mil exemplares em dois meses, duzentos mil em doze anos”. Sua influência sobre o idioma e a cultura alemã é muitas vezes comparada à da Versão Rei Jaime sobre o inglês.
Nos anos que se seguiram à Dieta de Worms, o movimento da Reforma ganhou tanto apoio popular que em 1526 o imperador concedeu a cada estado alemão o direito de escolher sua forma de religião, luterana ou católica romana. Contudo, em 1529, quando o imperador reverteu a decisão, alguns dos príncipes alemães protestaram; assim, cunhou-se o nome protestante para o movimento da Reforma. No ano seguinte, 1530, na Dieta de Augsburgo, o imperador empenhou-se em sanar as diferenças entre as duas partes. Os luteranos apresentaram suas crenças num documento, a Confissão de Augsburgo, produzido por Philipp Melanchthon, mas à base dos ensinos de Lutero. Embora o documento tivesse um tom mui conciliatório, a Igreja Romana rejeitou-o, e a brecha entre o protestantismo e o catolicismo tornou-se intransponível. Muitos estados alemães aliaram-se a Lutero e os estados escandinavos logo seguiram o seu exemplo.

Reforma ou Revolta?
Quais eram os pontos fundamentais que dividiam os protestantes dos católicos romanos? Segundo Lutero, havia três. Primeiro, Lutero cria que a salvação resulta da “justificação apenas através da fé” (latim, sola fide) e não da absolvição sacerdotal ou de obras de penitência. Segundo, ele ensinava que o perdão é concedido apenas devido à graça de Deus (sola gratia) e não pela autoridade de sacerdotes ou papas. Por fim, Lutero sustentava que todos os assuntos doutrinais deviam ser confirmados pelas Escrituras apenas (sola scriptura) e não por papas ou concílios de igreja.
Apesar disso, diz The Catholic Encyclopedia, Lutero “reteve das antigas crenças e liturgia tudo aquilo que era possível ajustar a seus conceitos peculiares sobre o pecado e a justificação”. Sobre a fé luterana, a Confissão de Augsburgo diz que “nada existe que seja discordante das Escrituras, ou da Igreja Católica, ou mesmo da Igreja Romana, conforme essa Igreja é conhecida à base de escritores”. De fato, a fé luterana, conforme delineada na Confissão de Augsburgo, incluía doutrinas antibíblicas como a Trindade, a alma imortal e o tormento eterno, bem como práticas tais como o batismo de bebês e feriados e festas religiosas. Por outro lado, os luteranos exigiram certas mudanças, tais como que se permitisse ao povo receber tanto o vinho como o pão na Comunhão e que fossem abolidos o celibato, os votos monásticos e a confissão compulsória.
Como um todo, a Reforma, conforme defendida por Lutero e seus seguidores, teve êxito em livrar-se do jugo papal. Mas, como Jesus declarou em João 4:24, “Deus é Espírito, e os que o adoram têm de adorá-lo com espírito e verdade”. Pode-se dizer que, com Martinho Lutero, a luta da humanidade em busca do verdadeiro Deus tomou apenas um novo rumo; o caminho estreito da verdade ainda estava distante. — Mateus 7:13, 14; João 8:31, 32.

A Reforma de Zwingli na Suíça
Enquanto Lutero se mantinha ocupado batalhando contra os emissários papais e as autoridades civis na Alemanha, o sacerdote católico Ulrich Zwingli (1484-1531) iniciou seu movimento de reforma em Zurique, Suíça. Sendo esta uma região de língua alemã, o povo já estava influenciado pela maré de reformas vinda do norte. Por volta de 1519, Zwingli começou a pregar contra as indulgências, a mariolatria, o celibato clerical e outras doutrinas da Igreja Católica. Embora Zwingli afirmasse ser independente de Lutero, ele concordava com Lutero em muitos aspectos e distribuía os panfletos de Lutero por todo o país. Em contraste com o mais conservador Lutero, porém, Zwingli defendia a remoção de todos os vestígios da Igreja Romana — imagens, crucifixos, batina, e até mesmo música litúrgica.
No entanto, uma controvérsia mais séria entre os dois Reformadores dizia respeito à Eucaristia, ou Missa (Comunhão). Lutero, insistindo numa interpretação literal das palavras de Jesus: ‘Este é meu corpo’, cria que o corpo e o sangue de Cristo estavam milagrosamente presentes no pão e no vinho servidos na Comunhão. Zwingli, por outro lado, argumentava, em seu tratado On the Lord’s Supper (Sobre a Ceia do Senhor) que a declaração de Jesus “deve ser tomada ilustrativa ou metaforicamente; ‘isto é meu corpo’, quer dizer ‘o pão significa meu corpo’, ou ‘é uma representação do meu corpo’”. Por causa dessa diferença, os dois Reformadores se apartaram.
Zwingli continuou a pregar as suas doutrinas de reforma em Zurique e fez muitas mudanças ali. Outras cidades logo seguiram seu exemplo, mas a maioria das pessoas nas áreas rurais, mais conservadoras, apegaram-se ao catolicismo. O conflito entre as duas facções tornou-se tão grande que irrompeu uma guerra civil entre suíços protestantes e católicos romanos. Zwingli, servindo como capelão de exército, foi morto na batalha de Kappel, perto do lago Zug, em 1531. Quando finalmente veio a paz, concedeu-se a cada distrito o direito de decidir sua própria forma de religião, protestante ou católica.

Anabatistas, Menonitas e Huteritas
Alguns protestantes, porém, achavam que os Reformadores não foram suficientemente longe em renunciar às falhas da igreja católica papista. Criam que a igreja cristã devia compor-se apenas dos fiéis praticantes que se tornavam batizados, em vez de todo o povo numa comunidade ou nação. Assim, eles rejeitavam o batismo de bebês e insistiam na separação entre Igreja e Estado. Secretamente rebatizavam seus concrentes e, por isso, ganharam o nome de anabatistas (ana significa “de novo” em grego). Visto que se recusavam a portar armas, fazer juramentos ou aceitar cargos públicos, eles eram encarados como ameaça à sociedade e eram perseguidos tanto por católicos como por protestantes.
De início, os anabatistas viviam em pequenos grupos espalhados por partes da Suíça, Alemanha e Países-Baixos. Sendo que pregavam suas crenças onde quer que fossem, suas fileiras aumentavam rapidamente. Um grupo de anabatistas, levados por seu fervor religioso, abandonou seu pacifismo e capturou a cidade de Münster, em 1534, e tentou estabelecê-la como comunal e polígama Nova Jerusalém. O movimento foi logo derrubado, com grande violência. Isto estragou a reputação dos anabatistas e eles foram praticamente eliminados. Na verdade, a maioria dos anabatistas eram pessoas religiosas simples que tentavam levar uma vida separada e tranqüila. Entre os mais bem organizados originários dos anabatistas havia os menonitas, seguidores do Reformador holandês Menno Simons, e os huteritas, liderados pelo tirolês Jacob Hutter. Para fugir da perseguição, alguns deles migraram para a Europa Oriental — Polônia, Hungria e até mesmo Rússia — outros para a América do Norte, onde por fim surgiram como comunidades huterita e amish.

Surge o CalvinismoA obra de reforma na Suíça prosseguiu sob a liderança de um francês chamado Jean Chauvin, ou João Calvino (1509-64), que entrou em contato com ensinamentos protestantes durante seus dias de estudo na França. Em 1534, Calvino deixou Paris por causa de perseguição religiosa e fixou-se em Basiléia, na Suíça. Em defesa dos protestantes, publicou Institutes of the Christian Religion (Preceitos da Religião Cristã), em que resumiu os conceitos dos primitivos pais da igreja e de teólogos medievais, bem como os de Lutero e Zwingli. Esse trabalho veio a ser considerado como fundamento doutrinal para todas as igrejas Reformadas fundadas mais tarde na Europa e nos Estados Unidos.
Em Preceitos, ele apresentou a sua teologia. Para Calvino, Deus é o soberano absoluto, cuja vontade determina e governa tudo. Em contraste, o homem decaído é pecaminoso e totalmente imerecedor. A salvação, portanto, não depende das boas obras do homem, mas de Deus — resultando disso a doutrina da predestinação, de Calvino, sobre a qual ele escreveu:
“Afirmamos que, por um eterno e imutável desígnio, Deus determinou de uma vez por todas, tanto a quem Ele concederá a salvação, como a quem Ele condenará à destruição. Afirmamos que este desígnio, no que tange aos eleitos, é fundado em Sua gratuita misericórdia, totalmente independente de mérito humano; mas que àqueles a quem Ele entrega à condenação, o portão da vida é fechado por um julgamento justo e irrepreensível, porém incompreensível.”
A austeridade de tal ensino reflete-se também em outras áreas. Calvino insistia que os cristãos devem levar uma vida santa e virtuosa, abstendo-se não somente do pecado, mas também do prazer e da frivolidade. Ademais, ele argumentava que a igreja, composta dos eleitos, deve ser poupada de todas as restrições civis e que apenas através da igreja é possível estabelecer uma sociedade realmente piedosa.
Pouco depois de publicar Preceitos, Calvino foi persuadido por William Farel, outro Reformador francês, a radicar-se em Genebra. Trabalharam juntos para pôr o calvinismo em prática. Seu objetivo era transformar Genebra numa cidade de Deus, uma teocracia de governo divino combinando as funções de Igreja e Estado. Instituíram regulamentos estritos, com sanções, que abrangiam tudo, desde instrução religiosa e serviços eclesiásticos à moral pública e até mesmo assuntos tais como saneamento e prevenção de incêndio. Certo livro de história conta que “certa cabeleireira, por exemplo, por arrumar o cabelo de uma noiva duma maneira considerada indecorosa, foi encarcerada por dois dias; e a mãe, junto com duas amigas, que haviam ajudado no processo, sofreram a mesma penalidade. Dançar e jogar baralho também eram punidos pelo magistrado”. Dispensava-se um tratamento duro aos que divergiam de Calvino em teologia, o caso mais famoso sendo a queima do espanhol Miguel Servet.
Calvino continuou a aplicar o seu tipo de reforma em Genebra até a sua morte, em 1564, e a igreja Reformada ficou firmemente estabelecida. Reformadores protestantes, fugindo da perseguição em outras terras, afluíram a Genebra, assimilaram os conceitos calvinistas e serviram de instrumentos em iniciar movimentos de reforma em seus respectivos países de origem. O calvinismo logo chegou à França, onde os huguenotes (como eram chamados os protestantes calvinistas franceses) sofreram severa perseguição às mãos dos católicos. Nos Países-Baixos, os calvinistas ajudaram a estabelecer a Igreja Holandesa Reformada. Na Escócia, sob a zelosa liderança do ex-sacerdote católico João Knox, a Igreja Presbiteriana da Escócia foi estabelecida segundo a linha calvinista. O calvinismo desempenhou um papel também na Reforma na Inglaterra, e de lá seguiu com os puritanos para a América do Norte. Neste sentido, embora Lutero tivesse acionado a Reforma protestante, Calvino teve em muito a maior influência no seu desenvolvimento.

Reforma na Inglaterra
Bastante distante dos movimentos de reforma na Alemanha e na Suíça, a Reforma inglesa pode remontar suas raízes aos dias de João Wycliffe, cuja pregação anticlerical e ênfase na Bíblia gerou o espírito protestante na Inglaterra. Seu empenho em traduzir a Bíblia para o inglês foi seguido por outros. William Tyndale, que teve de fugir da Inglaterra, produziu seu Novo Testamento em 1526. Mais tarde foi traído na Antuérpia e estrangulado na estaca, e seu corpo foi queimado. Miles Coverdale terminou a obra de tradução de Tyndale, e a Bíblia completa surgiu em 1535. A publicação da Bíblia na língua do povo foi sem dúvida o mais poderoso fator que contribuiu para a Reforma na Inglaterra.
A ruptura formal com o catolicismo romano ocorreu quando Henrique VIII (1491-1547), chamado de Defensor da Fé pelo papa, proclamou o Ato de Supremacia, em 1534, nomeando a si mesmo chefe da Igreja da Inglaterra, ou Igreja Anglicana. Henrique também fechou os mosteiros e dividiu os bens destes entre a pequena nobreza. Além disso, ordenou que se colocasse um exemplar da Bíblia em inglês em todas as igrejas. Contudo, a ação de Henrique era mais política do que religiosa. O que ele queria era independência da autoridade papal, especialmente sobre seus assuntos conjugais. No aspecto religioso, ele continuou católico em todos os sentidos, menos no nome.
Foi durante o longo reinado (1558-1603) de Elizabete I que a Igreja da Inglaterra tornou-se protestante na prática, embora permanecesse largamente católica na estrutura. Aboliu o dever de obediência ao papa, o celibato clerical, a confissão e outras práticas católicas, não obstante, reteve uma forma episcopal de estrutura eclesiástica em sua hierarquia de arcebispos e bispos, bem como ordens de monges e freiras. Este conservadorismo causou considerável descontentamento, e surgiram vários grupos dissidentes. Os puritanos exigiam uma reforma mais cabal para purificar a igreja de todas as práticas católico romanas; os separatistas e os independentes insistiam que os assuntos da igreja deviam ser cuidados por anciãos locais (presbíteros). Muitos dissidentes fugiram para os Países-Baixos ou para a América do Norte, onde fundaram adicionalmente suas igrejas Congregacional e Batista. Também surgiu na Inglaterra a Sociedade de Amigos (Quakers) sob George Fox (1624-91) e os Metodistas sob João Wesley (1703-91).

Quais Foram os Efeitos?
Tendo considerado as três principais correntes da Reforma — Luterana, Calvinista e Anglicana — temos de parar para avaliar o que a Reforma realizou. Inegavelmente, ela mudou o rumo da história no mundo ocidental. “O efeito da Reforma foi aferventar no povo uma sede de liberdade e de cidadania mais elevada e mais pura. Onde quer que a causa protestante se expandisse, ela tornava as massas mais cônscias de seus direitos”, escreveu John F. Hurst em seu livro Short History of the Reformation (Breve História da Reforma). Muitos estudiosos crêem que a civilização ocidental como hoje a conhecemos teria sido impossível sem a Reforma. Seja como for, temos de perguntar: O que a Reforma realizou em sentido religioso? O que fez ela para ajudar a humanidade na busca do verdadeiro Deus?
O maior bem realizado pela Reforma foi, sem dúvida, que ela colocou a Bíblia ao alcance do povo na sua própria língua. Pela primeira vez, as pessoas tinham diante de si a inteira Palavra de Deus para ler, podendo assim ser nutridas espiritualmente. Mas, naturalmente, exige-se mais do que apenas ler a Bíblia. Será que a Reforma libertou o povo, não só da autoridade papal, mas também das doutrinas e dogmas errôneos aos quais estivera sujeito por séculos? —João 8:32.
Praticamente todas as igrejas protestantes endossam os mesmos credos — os credos de Nicéia, Atanasiano e dos Apóstolos — e esses professam algumas das mesmíssimas doutrinas que o catolicismo tem ensinado por séculos, como a Trindade, a imortalidade da alma e o inferno de fogo. Tais ensinos antibíblicos deram ao povo um quadro distorcido a respeito de Deus e Seu propósito. Em vez de ajudar as pessoas na sua busca do Deus verdadeiro, as numerosas seitas e denominações que surgiram em resultado do livre espírito da Reforma protestante apenas as dirigiram a muitas diferentes direções. De fato, a diversidade e a confusão levaram muitos a questionar a própria existência de Deus. O resultado? No século 19 surgiu uma crescente onda de ateísmo e agnosticismo. Este será o assunto de nosso próximo capítulo.

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