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O SHOW DO COMÉRCIO DO CAMPINARTE

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Religião — como começou? (Parte 4) Taoísmo e Confucionismo — uma busca do caminho do céu

O taoísmo, o confucionismo e o budismo constituem as três principais religiões da China e do Extremo Oriente. Diferente do budismo, porém, o taoísmo e o confucionismo não se tornaram religiões universais, mas têm permanecido basicamente na China e onde quer que a cultura chinesa firmasse sua influência. Embora não existam dados oficiais do número atual de seus seguidores na China, o taoísmo e o confucionismo juntos têm dominado a vida religiosa de cerca de um quarto da população do mundo nos últimos 2.000 anos.
‘QUE cem flores desabrochem; que cem escolas contendam.’ Este ditado, tornado famoso por Mao Tse-tung da República Popular da China num discurso em 1956, era realmente uma paráfrase da expressão que os eruditos chineses têm usado para descrever a era chinesa do quinto ao terceiro séculos AEC, chamada de período dos Estados Combatentes. Nessa época, a poderosa dinastia Chou (c. 1122-256 AEC) se deteriorara num sistema de estados feudais vagamente ligados entre si, que se empenhavam em contínuas guerras, com resultante aflição para o povo.
O tumulto e o sofrimento causados pelas guerras enfraqueceram seriamente a autoridade da classe dominante tradicional. O povo não mais se dispunha a submeter-se aos caprichos e artimanhas da aristocracia e a sofrer silenciosamente as conseqüências. Em resultado, conceitos e aspirações há muito sufocados irromperam como “cem flores”. Diferentes escolas de pensamento promoveram seus conceitos sobre governo, lei, ordem social, conduta e ética, bem como sobre assuntos tais como agricultura, música e literatura, quais meios de restaurar uma medida de normalidade na vida. Vieram a ser conhecidas como as “cem escolas”. A maioria delas não produziu um efeito duradouro. Duas escolas, porém, se destacaram de tal maneira que têm influenciado a vida na China por mais de 2.000 anos. Eram as que por fim vieram a ser conhecidas como taoísmo e confucionismo.
Tao — O Que É?
Para entender por que o taoísmo e o confucionismo vieram a exercer tão profunda e duradoura influência sobre o povo chinês, bem como sobre o do Japão, da Coréia e de outras nações circunvizinhas, é necessário entender algo do conceito fundamental chinês do Tao. A palavra em si significa “caminho, estrada, ou vereda”. Por extensão, pode também significar “método, princípio, ou doutrina”. Para os chineses, a harmonia e o funcionamento ordeiro que perceberam no universo eram manifestações do Tao, uma espécie de vontade ou legislação divina que existe no universo e o regula. Em outras palavras, em vez de crerem num Deus Criador, que controla o universo, eles criam numa providência, uma vontade do céu, ou simplesmente o próprio céu como a causa de tudo.
Aplicando o conceito do Tao a assuntos humanos, os chineses criam que existe um modo natural e correto para realizar todas as coisas, e que tudo e todos têm seu devido lugar e sua devida função. Por exemplo, eles criam que, se o governante cumprisse seus deveres tratando o povo com justiça e cuidando dos rituais sacrificiais pertinentes ao céu, haveria paz e prosperidade para a nação. Similarmente, se as pessoas se dispusessem a buscar o caminho, ou Tao, e o seguissem, tudo seria harmonioso, pacífico e eficiente. Mas, se elas o contrariassem, ou lhe resistissem, o resultado seria o caos e o desastre.
Este conceito de seguir o Tao e não interferir em seu fluxo é um componente central do pensamento filosófico e religioso chinês. Pode-se dizer que o taoísmo e o confucionismo são duas expressões diferentes do mesmo conceito. O taoísmo faz uma abordagem mística, e, em sua forma original, defende a inação, a quietude e a passividade, evitando a sociedade e retornando à natureza. Seu conceito básico é que tudo sairá bem se as pessoas se acomodarem, nada fizerem, e permitirem que a natureza siga seu curso. O confucionismo, por outro lado, faz uma abordagem pragmática. Ensina que a ordem social será mantida se toda pessoa desempenhar o papel que lhe cabe e cumprir com o seu dever. Para isso, codifica todos os relacionamentos humanos e sociais — governante-súdito, pai-filho, marido-esposa e assim por diante — e fornece diretrizes para todos eles. Naturalmente, isto suscita as seguintes perguntas: Como é que vieram à existência esses dois sistemas? Quem foram seus fundadores? Como são praticados hoje? E o que fizeram para ajudar o homem na sua busca de Deus?
Taoísmo — Um Início Filosófico
Nos seus estágios primitivos, o taoísmo era mais uma filosofia do que uma religião. Seu fundador, Lao-tzu, estava descontente com o caos e o tumulto da época e buscou alívio evitando a sociedade e voltando-se para a natureza. Pouco se sabe sobre esse homem, que teria vivido no sexto século AEC, embora até mesmo isso seja incerto. Era comumente chamado de Lao-tzu, que significa “Velho Mestre”, ou “Velho”, porque, como diz a lenda, sua mãe grávida teve-o por tanto tempo no ventre que, quando nasceu, o cabelo dele já estava branco.
O único registro oficial sobre Lao-tzu aparece em Shih Chi (Registros Históricos), de Ssu-ma Ch’ien, um respeitado historiador palaciano do segundo e primeiro séculos AEC. Segundo essa fonte, o nome verdadeiro de Lao-tzu era Li Ur. Ele servia como escriturário nos arquivos imperiais em Loiang, China central. Contudo, mais significativamente, fornece o seguinte relato a respeito de Lao-tzu:
“Lao Tzu residiu em Chou a maior parte de sua vida. Quando previu a decadência de Chou, ele partiu dali para a fronteira. O funcionário da alfândega Yin Hsi disse: ‘Senhor, visto que te agrada aposentar-te, peço-te, por minha causa, que escrevas um livro.’ Diante disso, Lao Tzu escreveu um livro de duas partes, consistindo de cinco mil e tantas palavras, no qual considerou os conceitos do Caminho [Tao] e do Poder [Te]. Daí, partiu. Ninguém sabe onde ele morreu.”
Muitos eruditos duvidam da autenticidade desse relato. De qualquer modo, o livro produzido é conhecido como Tao Te Ching (geralmente traduzido por “O Clássico do Caminho e do Poder”), sendo considerado o principal texto do taoísmo. É escrito em versos tersos e crípticos, alguns deles com apenas três ou quatro palavras. Por isso, e também porque o significado de alguns caracteres mudou muito desde os dias de Lao-tzu, o livro está sujeito a muitas interpretações.
Breve Visão do “Tao Te Ching”
Em Tao Te Ching, Lao-tzu explica o Tao, o derradeiro caminho da natureza, e aplica-o a todos os níveis de atividade humana. Citamos a seguir de uma moderna tradução, para o inglês, de Gia-fu Feng e Jane English, para termos um relance de Tao Te Ching. Sobre o Tao, diz o seguinte:
“[Existia] algo formado misteriosamente,
Nascido antes do céu e da terra. . . .
Talvez seja a mãe de dez mil coisas.
Não sei o seu nome.
Chame-o de Tao.”
“Todas as coisas surgem do Tao.
São produzidas pela Virtude [Te].
São formadas da matéria.
São moldadas pelo ambiente.
Assim, todas as dez mil coisas respeitam o Tao
e dão honra à Virtude [Te].”
O que podemos deduzir dessas enigmáticas passagens? Que, para os taoístas, o Tao é uma misteriosa força cósmica responsável pelo universo material. O objetivo do taoísmo é procurar o Tao, deixar para trás o mundo, e tornar-se harmonioso com a natureza. Tal idéia se reflete também no conceito dos taoístas a respeito da conduta humana. Eis uma expressão desse ideal em Tao Te Ching:
“Melhor é parar pouco antes do que encher até o limite.
Afie demais a lâmina, e o corte logo ficará cego.
Ajunte uma grande quantidade de ouro e de jade, e ninguém poderá protegê-la.
Pretenda riquezas e títulos, e o desastre se seguirá.
Recolha-se quando o trabalho está terminado.
Este é o caminho do céu.”
Estes poucos exemplos mostram que, pelo menos de início, o taoísmo era basicamente uma escola de filosofia. Reagindo contra as injustiças, os sofrimentos, a devastação e a futilidade resultantes do cruel domínio do sistema feudal da época, os taoístas criam que o caminho para encontrar a paz e a harmonia era retornar à tradição dos antigos, antes de existirem reis e ministros que dominavam o povo. Seu ideal era levar a tranqüila vida rural, em união com a natureza. — Provérbios 28:15; 29:2.
O Segundo Sábio do TaoísmoA filosofia de Lao-tzu foi levada um passo adiante por Chuang Chou, ou Chuang-tzu, que significa “Mestre Chuang” (369-286 AEC), que era tido como o mais eminente sucessor de Lao-tzu. Em seu livro, Chuang Tzu, ele não apenas acrescentou detalhes ao Tao como também explicou os conceitos de yin e yang, originalmente desenvolvidos em I Ching. Em seu conceito, nada é realmente permanente ou absoluto, mas tudo se acha num estado de fluxo entre dois opostos. No capítulo “Dilúvio de Outono”, ele escreveu:
“Nada no universo é permanente, pois tudo vive apenas o tempo suficiente para morrer. Apenas Tao, que não tem começo nem fim, dura para sempre. . . . A vida pode ser comparada a um cavalo veloz cavalgando a plena velocidade — ele muda constante e continuamente, a cada fração de segundo. O que você deve fazer? O que você não deve fazer? Realmente não importa.”
Devido a essa filosofia de inércia, o conceito taoísta diz ser inútil alguém fazer algo para interferir naquilo que a natureza pôs em movimento. Mais cedo ou mais tarde, tudo retornará ao seu oposto. Não importa quão insuportável seja uma situação, ela logo melhorará. Não importa quão agradável seja uma situação, ela logo desaparecerá. (Em contraste, veja Eclesiastes 5:18, 19.) Este conceito filosófico da vida é exemplificado num dos sonhos de Chuang-tzu, pelo qual o povo mais se lembra dele:
“Certa vez Chuang Chou sonhou ser uma borboleta, uma borboleta que esvoaçava e adejava, feliz consigo mesma e vivendo a seu bel-prazer. Ela não sabia que era Chuang Chou. Subitamente acordou e ali estava ele, concreto e inconfundível Chuang Chou. Mas, ele não sabia se ele era Chuang Chou que sonhara ser uma borboleta ou se era uma borboleta sonhando ser Chuang Chou.”
Vê-se a influência dessa filosofia no estilo de poesia e de pintura desenvolvido por artistas chineses de gerações posteriores. No entanto, o taoísmo não permaneceria por muito tempo como filosofia passiva.
De Filosofia a Religião
Na sua tentativa de estar em comunhão com a natureza, os taoístas tornaram-se obsedados com a perenidade e a resiliência da natureza. Especulavam que, se a pessoa vivesse em harmonia com o Tao, ou o caminho da natureza, ela talvez pudesse de algum modo penetrar nos segredos da natureza e tornar-se imune ao dano físico, a doenças e até mesmo à morte. Embora Lao-tzu não insistisse nisso, certos trechos em Tao Te Ching parecem sugerir tal idéia. Por exemplo, o capítulo 16 diz: “Estar em comunhão com o Tao é eterno. E, embora o corpo morra, o Tao jamais perecerá.”
Chuang-tzu também contribuiu para tais especulações. Por exemplo, num diálogo em Chuang Tzu, um personagem mitológico perguntou a outro: “És de idade avançada, no entanto, tens a pele de criança. Como pode?” Este último respondeu: “Eu aprendi o Tao.” Sobre outro filósofo taoísta, Chuang-tzu escreveu: “Ora, Liehtse podia cavalgar no vento. Deslizava feliz na fresca brisa, continuaria por quinze dias antes de retornar. Entre os mortais que conseguem a felicidade, tal homem é uma raridade.”
Histórias assim acenderam a imaginação dos taoístas, e eles passaram a fazer experiências com meditação, dietas e exercícios respiratórios que supostamente podiam retardar a degeneração e a morte física. Logo começaram a circular lendas a respeito de seres imortais que podiam voar sobre as nuvens e aparecer e desaparecer a seu bel-prazer, vivendo em montanhas sagradas ou em ilhas remotas por incontáveis anos, sustentados pelo orvalho ou por frutas mágicas. A história chinesa conta que em 219 AEC, o imperador Ch’in, Shih Huang-Ti enviou uma frota de navios com 3.000 meninos e meninas para encontrar a lendária ilha de P’eng-lai, a morada dos imortais, para trazer de volta a erva da imortalidade. Desnecessário é dizer, eles não retornaram com o elixir, mas, diz a tradição, povoaram as ilhas que vieram a ser conhecidas como Japão.
Durante a dinastia Hã (206 AEC–220 EC), as práticas mágicas do taoísmo atingiram um novo apogeu. Consta que o imperador Wu Ti, embora promovesse o confucionismo como ensino oficial do Estado, sentia-se muito atraído ao conceito taoísta da imortalidade física. Entusiasmou-se especialmente com as engendradas ‘pílulas da imortalidade’ da alquimia. No conceito taoísta, a vida surge quando as forças opostas yin e yang (feminina e masculina) se unem. Assim, fundindo chumbo (escuro, ou yin) com mercúrio (claro, ou yang), os alquimistas estariam imitando os processos da natureza, e o produto, pensavam eles, seria uma pílula da imortalidade. Os taoístas também desenvolveram exercícios tipo ioga, técnicas de controle da respiração, restrições dietéticas e práticas sexuais que alegadamente fortaleciam a energia vital da pessoa e prolongavam a vida. Sua parafernália incluía talismãs mágicos que, segundo se dizia, tornavam a pessoa invisível e invulnerável a armas, ou a capacitavam a andar sobre água ou a voar no espaço. Tinham também selos mágicos, usualmente contendo o símbolo yin-yang, que eram afixados em prédios e sobre o vão de portas para repelir maus espíritos e feras.
Por volta do segundo século EC, o taoísmo tornara-se organizado. Um certo Chang Ling, ou Chang Tao-ling, fundou uma sociedade taoísta secreta na China ocidental e praticava curas mágicas e alquimia. Visto que de cada membro se cobrava uma taxa de cinco celamins de arroz, seu movimento ficou conhecido como Taoísmo dos Cinco-Celamins-de-Arroz (wu-tou-mi tao). Afirmando ter recebido uma revelação pessoal de Lao-tzu, Chang tornou-se o primeiro “mestre celestial”. Por fim, afirmou-se que ele conseguiu fazer o elixir da vida e que ascendeu vivo ao céu, montado num tigre, a partir do monte Lung-hu (Monte do Tigre-Dragão), na província de Kiangsi. Com a presença de Chang Tao-ling ali teve início uma sucessão, de séculos de duração, de “mestres celestiais” taoístas, cada qual sendo alegadamente uma reencarnação de Chang.
Enfrentando o Desafio do BudismoPor volta do sétimo século, durante a dinastia T’ang (618-907 EC), o budismo fazia incursões na vida religiosa chinesa. Em contramedida, o taoísmo promovia a si mesmo como religião com raízes chinesas. Lao-tzu foi deificado, e os escritos taoístas foram canonizados. Construíram-se templos, mosteiros e conventos, e fundaram-se ordens de monges e monjas, mais ou menos no estilo budista. Além disso, o taoísmo adotou também em seu próprio panteão muitos dos deuses, deusas, fadas e imortais do folclore chinês, tais como os Oito Imortais (Pa Hsien), o deus do lar (Tsao Shen), deuses da cidade (Ch’eng Huang), e guardiães da porta (Men Shen). O resultado foi uma fusão de elementos do budismo, superstições tradicionais, espiritismo e adoração de ancestrais. — 1 Coríntios 8:5.
Com o tempo, o taoísmo lentamente se degenerou num sistema de idolatria e superstição. Cada pessoa simplesmente adorava seus deuses e deusas preferidos nos templos locais, pedindo-lhes proteção contra o mal e ajuda para ganhar fortuna terrena. Os sacerdotes eram contratados para realizar funerais, selecionar locais propícios para sepulturas, casas e negócios, comunicar-se com os mortos, afastar maus espíritos e fantasmas, celebrar festividades e realizar vários outros rituais. Assim, o que começara como escola de filosofia mística se transformou numa religião profundamente atolada na crença em espíritos imortais, inferno de fogo e semideuses — conceitos tirados do estagnado reservatório de crenças falsas da antiga Babilônia.
Outro Eminente Sábio da China
Ao passo que traçamos a ascensão, o desenvolvimento e a decadência do taoísmo, devemos lembrar-nos de que se tratava de apenas uma das “cem escolas” que floresceram na China durante o período dos Estados Combatentes. Outra escola que por fim alcançou destaque, de fato, predomínio, foi o confucionismo. Mas, por que o confucionismo alcançou tal destaque? De todos os sábios chineses, Confúcio é, sem dúvida, o mais conhecido fora da China, mas, quem realmente era ele? E o que ensinava?
A respeito de Confúcio, recorreremos novamente aos Shih Chi (Registros Históricos) de Ssu-ma Ch’ien. Em contraste com o breve sumário sobre Lao-tzu, encontramos uma extensa biografia de Confúcio. Apresentamos a seguir alguns detalhes pessoais citados de uma tradução (para o inglês) do erudito chinês Lin Yutang:
“Confúcio nasceu na cidade de Tsou, no condado de Ch’angping, no ducado de Lu. . . . [Sua mãe] orou na colina Nich’iu e gerou Confúcio em resposta à sua oração, no vigésimo segundo ano do duque Hsiang, de Lu (551 AC). Houve uma percebível convolução na sua cabeça por ocasião de seu nascimento, e foi por isso que ele foi chamado de ‘Ch’iu’ (que significa “colina”). Seu nome literário era Chungni, e seu sobrenome era K’ung.”
Pouco depois de seu nascimento, seu pai faleceu, mas, sua mãe, embora pobre, conseguiu dar-lhe uma educação adequada. O menino desenvolveu profundo interesse em história, poesia e música. Segundo Os Analectos, um dos Quatro Livros do confucionismo, ele devotou-se a estudos eruditos ao atingir 15 anos de idade. Aos 17, deram-lhe um pequeno cargo governamental em seu estado nativo, Lu.
Sua situação financeira evidentemente melhorou, de modo que ele se casou aos 19 anos, e teve um filho no ano seguinte. Mas, quando beirava os 25, sua mãe morreu. Isto evidentemente o afetou profundamente. Sendo meticuloso cumpridor de tradições antigas, Confúcio retirou-se da vida pública e pranteou sua mãe junto à sepultura por dois anos e três meses, dando assim aos chineses um clássico exemplo de devoção filial.
O Mestre Confúcio
Depois disso, Confúcio deixou a família e assumiu a ocupação de mestre itinerante. Ele ensinava música, poesia, literatura, educação cívica, ética, ciência, ou o que quer que disso existisse naquele tempo. Deve ter-se tornado bastante famoso, pois, segundo se diz, chegou a ter numa ocasião nada menos de 3.000 alunos.
No Oriente, Confúcio é reverenciado principalmente como mestre por excelência. De fato, a inscrição em sua sepultura em Ch’ü-fou, na província de Xantung, chama-o simplesmente de “Antigo Santíssimo Mestre”. Certo escritor ocidental descreve assim o seu método de ensino: “Ele caminhava de ‘lugar em lugar acompanhado dos que absorviam seus conceitos de vida’. Sempre que a jornada fosse mais distante ele ia de carro de boi. O passo lento do animal permitia que seus pupilos o acompanhassem a pé, e é evidente que o assunto de suas palestras não raro se inspirava em eventos que ocorriam a caminho.” É interessante que Jesus, numa época posterior, e independentemente, usou um método similar.
O que fez de Confúcio um prestigiado mestre entre os orientais, foi, sem dúvida, o fato de que ele mesmo era bom estudante, especialmente de História e Ética. “As pessoas sentiam-se atraídas a Confúcio, não tanto por ser ele o homem mais sábio de sua época, mas porque era o mais culto erudito, o único de seus dias que podia ensiná-los a respeito dos livros antigos e da antiga erudição”, escreveu Lin Yutang. Indicando esse amor ao aprendizado como talvez a razão fundamental do triunfo do confucionismo sobre outras escolas de pensamento, Lin resumiu o assunto do seguinte modo: “Os mestres confucionistas tinham algo definido a ensinar e os discípulos confucionistas tinham algo definido a aprender, a saber, aprendizado histórico, ao passo que as outras escolas eram obrigadas a propalar as suas próprias opiniões.”
“É o Céu Que Me Conhece!”
Apesar de seu êxito como mestre, Confúcio não considerou o ensino como carreira vitalícia. Ele achava que seus conceitos sobre ética e moral poderiam salvar o mundo atribulado de seus dias, se tão-somente os governantes os aplicassem por contratar a ele ou a seus discípulos em seus governos. Para isso, ele e um pequeno grupo de discípulos mais íntimos deixaram seu estado natal, Lu, e passaram a viajar de estado em estado tentando encontrar o sábio governante que adotasse seus conceitos sobre governo e ordem social. Em que resultou? Shih Chi diz: “Por fim ele deixou Lu, foi abandonado em Ch’i, expulso de Sung e Wei, sofreu penúria entre Ch’en e Ts’ai.” Depois de 14 anos de jornada, ele voltou a Lu, desapontado, mas não combalido.
No restante de seus dias, ele devotou-se à obra literária e ao ensino. Embora sem dúvida lamentasse a sua obscuridade, ele disse: “Não murmuro contra o Céu. Não resmungo contra o homem. Dedico-me aos meus estudos aqui na terra, e estou em contato com o Céu acima. É o Céu que me conhece!” Por fim, no ano de 479 AEC, morreu aos 73 anos de idade.
A Essência dos Conceitos Confucionistas
Embora Confúcio se destacasse como erudito e mestre, sua influência de modo algum se limitava aos círculos acadêmicos. De fato, a meta de Confúcio não era apenas ensinar regras de conduta ou de moral, mas também restaurar a paz e a ordem na sociedade, que, na época, estava dilacerada pelas constantes guerras entre os senhores feudais. Para atingir tal alvo, Confúcio ensinava que todos, do imperador ao homem comum, tinham de aprender qual o papel que se esperava que cada um desempenhasse na sociedade e viver concordemente.
No confucionismo, esse conceito é conhecido como li, que significa decoro, cortesia, a ordem das coisas, e, por extensão, ritual, cerimônia e reverência. Respondendo à pergunta: “O que é esse grande li?”, Confúcio explicou o seguinte:
“De todas as coisas pelas quais as pessoas vivem, li é a maior. Sem li, não sabemos como conduzir uma adequada adoração dos espíritos do universo; ou como estabelecer a correta condição do rei e dos ministros, do governante e dos governados, e dos anciãos e dos mais novos; ou como estabelecer o relacionamento moral entre os sexos, entre pais e filhos e entre irmãos; ou como distinguir os diferentes graus de relacionamento na família. É por isso que um cavalheiro tem li em tão alta estima.”
Ora, li é a regra de conduta pela qual um verdadeiro cavalheiro (chün-tzu, às vezes traduzido por “homem superior”) pauta todas as suas relações sociais. Quando todos se esforçam em fazer isso, “tudo se endireita na família, no estado e no mundo”, disse Confúcio, e é neste caso que se pratica o Tao, ou o caminho do céu. Mas, como é que se expressa o li? Isto nos leva a outro dos conceitos centrais do confucionismo — jen (pronuncia-se ren), humanitarismo ou amor pelos outros.
Ao passo que li enfatiza a restrição através de regras exteriores, jen lida com a natureza humana, ou a pessoa interior. O conceito confuciano, especialmente conforme expresso pelo principal discípulo de Confúcio, Mêncio, é que a natureza humana é basicamente boa. Assim, a solução para todos os males sociais jaz no auto-aperfeiçoamento, e isso começa com educação e conhecimento. O capítulo inicial de The Great Learning (O Grande Aprendizado), diz:
“Quando se alcança o conhecimento verdadeiro, a vontade se torna sincera; quando a vontade é sincera, o coração é retificado . . . ; quando o coração é retificado, aperfeiçoa-se a vida pessoal; quando se aperfeiçoa a vida pessoal, a vida familiar é ajustada; quando a vida familiar é ajustada, a vida nacional é ordeira; e quando a vida nacional é ordeira, há paz neste mundo. Do imperador aos cidadãos comuns, todos têm de considerar o aprimoramento da vida pessoal como raiz ou fundação.”
Vemos assim que, segundo Confúcio, a observância de li habilita as pessoas a se comportarem corretamente em todas as situações, e o desenvolvimento de jen faz com que tratem bondosamente todas as pessoas. O resultado, teoricamente, é paz e harmonia na sociedade. O ideal confuciano, baseado nos princípios de li e jen, pode ser resumido da seguinte maneira:
“Bondade no pai, devoção filial no filho
Fidalguia no irmão mais velho, humildade e respeito no mais novo
Comportamento justo no marido, obediência na esposa
Consideração humana nos anciãos, deferência nos mais novos
Benevolência nos governantes, lealdade nos ministros e nos súditos.”
Tudo isso ajuda a explicar por que a maioria do povo chinês, e mesmo outros orientais, dão tanta ênfase a laços familiares, a ser diligente, à educação e a conhecer e agir segundo a posição da pessoa. Para o bem ou para o mal, tais conceitos confucianos têm sido cravados profundamente na consciência chinesa através de séculos de inculca.
O Confucionismo Vira Culto Estatal
Com a ascensão do confucionismo, o período das “cem escolas” chegou a um fim. Os imperadores da dinastia Han encontraram nos ensinamentos confucianos de lealdade ao governante justamente a fórmula de que necessitavam para solidificar o poder do trono. Sob o imperador Wu Ti, a quem já nos referimos em conexão com o taoísmo, o confucionismo foi elevado à condição de culto estatal. Apenas os versados nos clássicos confucianos eram selecionados para funcionários governamentais, e quem quer que almejasse entrar para o serviço governamental tinha de passar por exames a nível nacional baseados nos clássicos confucianos. Ritos e rituais confucianos tornaram-se a religião do palácio real.
Essa mudança de situação contribuiu muito para elevar a posição de Confúcio na sociedade chinesa. Os imperadores Han iniciaram a tradição de oferecer sacrifícios no túmulo de Confúcio. Conferiram-se-lhe títulos honoríficos. Daí, em 630 EC, o imperador T’ai Tsung, da dinastia T’ang, ordenou que em toda província e condado do império se erigisse um templo estatal a Confúcio, e que se oferecessem sacrifícios regularmente. Para todos os efeitos, Confúcio foi elevado à condição de deus, e o confucionismo tornou-se uma religião dificilmente distinguível do taoísmo ou do budismo.
O Legado da Sabedoria do Oriente
Desde o fim do governo de dinastias na China, em 1911, o confucionismo e o taoísmo têm sido muito criticados, até mesmo perseguidos. O taoísmo foi desacreditado por causa de suas práticas mágicas e supersticiosas. E o confucionismo tem sido rotulado de feudalista, que promove uma mentalidade escrava, para manter as pessoas, em especial as mulheres, em sujeição. Não obstante, apesar dessas denúncias oficiais, os conceitos básicos dessas religiões estão tão profundamente arraigados na mentalidade chinesa que ainda exercem uma forte influência sobre muitas pessoas.
Por exemplo, sob o cabeçalho “Ritos Religiosos Chineses São Raros em Beijing [Pequim] mas Florescem nas Regiões Costeiras”, o jornal canadense Globe and Mail disse, em 1987, que, depois de uns 40 anos de governo ateísta na China, os ritos fúnebres, ofícios em templos e muitas práticas supersticiosas ainda são comuns nas áreas rurais. “A maioria das aldeias tem um fengshui, em geral um residente de mais idade que sabe ler as forças do vento (feng) e da água (shui) para determinar a mais propícia localização para tudo, desde a sepultura ancestral à nova casa ou aos móveis da sala de estar”, diz o artigo.
Em outras partes, o taoísmo e o confucionismo estão presentes onde quer que a cultura tradicional chinesa sobreviva. Em Formosa, certo homem que afirma ser descendente de Chang Tao-ling preside como “mestre celestial” com poder de ordenar sacerdotes taoístas (Tao Shih). A popular deusa Matsu, tida como “Santa Mãe no Céu”, é adorada como santa padroeira da ilha e dos navegantes e pescadores. Quanto ao povo, ele se preocupa mais em apresentar oferendas e sacrifícios aos espíritos dos rios, das montanhas e das estrelas, às deidades padroeiras de todos os ofícios e aos deuses da saúde, da boa sorte e da riqueza.
Que dizer do confucionismo? Seu papel como religião tem sido reduzido à condição de monumento nacional. Em Ch’ü-fou, na China, a terra natal de Confúcio, o Estado mantém o Templo de Confúcio e locais históricos da família como atrações turísticas. Ali, segundo a revista China Reconstructs, fazem-se apresentações para “encenar um ritual de adoração de Confúcio”. E em Cingapura, Formosa, Hong Kong e outros lugares da Ásia oriental, as pessoas ainda comemoram o natalício de Confúcio.
O confucionismo e o taoísmo são exemplos de que um sistema baseado na sabedoria e no raciocínio humano, independente de quão lógico e bem-intencionado seja, por fim falha na busca do Deus verdadeiro. Por quê? Porque deixa fora um elemento essencial, a saber, a vontade e os requisitos de um Deus pessoal. O confucionismo recorre à natureza humana como a força motivadora para realizar o bem, e o taoísmo recorre à própria natureza. Mas, trata-se de uma confiança mal direcionada, pois equivale simplesmente a adorar coisas criadas em vez de ao Criador. — Salmo 62:9; 146:3, 4; Jeremias 17:5.
Por outro lado, as tradições de adorar ancestrais e ídolos, a reverência por um céu cósmico e a veneração de espíritos na natureza, bem como os ritos e rituais relacionados com eles, ficaram tão profundamente arraigados na maneira de pensar chinesa que são aceitos como sendo a incontestável verdade. Não raro é muito difícil falar com um chinês sobre um Deus ou Criador pessoal, por ser este um conceito tão alheio para ele. — Romanos 1:20-25.
É inegável que a natureza está repleta de grandes maravilhas e sabedoria, e que os seres humanos são dotados das maravilhosas faculdades da razão e da consciência. Mas, conforme destacado no capítulo sobre o budismo, as maravilhas que vemos no mundo natural têm levado mentes refletidas a concluir que deve existir um Projetista ou Criador. Sendo assim, então, não é lógico que o nosso empenho deve ser buscar o Criador? De fato, o Criador nos convida a fazer isso: “Levantai ao alto os vossos olhos e vede. Quem criou estas coisas? Foi Aquele que faz sair o exército delas até mesmo por número, chamando a todas elas por nome.” (Isaías 40:26) Fazendo isso, chegaremos a conhecer não só quem é o Criador, isto é, Jeová Deus, mas também o que ele tem em reserva para o nosso futuro.
Além do budismo, do confucionismo e do taoísmo, que têm desempenhado um importante papel na vida religiosa das pessoas do Oriente, existe ainda outra religião, exclusiva do povo do Japão — o xintoísmo. Em que sentido é diferente? Qual é a sua origem? Conduziu as pessoas ao Deus verdadeiro? Veremos isso no próximo capítulo.
Os Quatro Livros e os Cinco Clássicos de Confúcio
Os Quatro Livros
1. O Grande Aprendizado (Ta Hsüeh), a base da educação de um cavalheiro, o primeiro texto que os meninos estudavam na escola na China antiga.
2. A Doutrina do Meio (Chung Yung), um tratado sobre o desenvolvimento da natureza humana através da moderação.
3. Os Analectos (Lun Yü), uma coletânea de dizeres de Confúcio, considerada a principal fonte do pensamento confuciano.
4. O Livro de Mêncio (Meng-tzu), escritos e dizeres do maior discípulo de Confúcio, Meng-tzu, ou Mêncio.
Os Cinco Clássicos1. O Livro de Poesia (Shih Ching), 305 poemas fornecendo um quadro do cotidiano nos primitivos tempos Chou (1000-600 AEC).
2. O Livro de História (Shu Ching), abrangendo 17 séculos de história chinesa começando com a dinastia Shang (1766-1122 AEC).
3. O Livro de Mutações (I Ching), um livro de adivinhação, baseado em interpretações de 64 possíveis combinações de seis linhas inteiras ou tracejadas.
4. O Livro dos Ritos (Li Chi), uma coletânea de regras sobre cerimônias e rituais.
5. Anais da Primavera e Outono (Ch’un Ch’iu), uma história do estado natal de Confúcio, Lu, abrangendo de 721-478 AEC.