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terça-feira, 16 de maio de 2017

Assad: altão, nerd, tímido... e ditador - Jornal O Globo

Bashar al-Assad é alto, tímido, elegante e tem língua presa. Não passa a imagem de um ditador. Muito menos de um ditador acusado de crimes contra a Humanidade, incluindo o uso armas químicas no mais sangrento conflito do século XXI. Quando eu o conheci, o líder sírio, com sua pinta de jogador de basquete, abriu a porta do carro para eu sair e entrevistá-lo em seu palácio presidencial em Damasco.
Nesta minha primeira coluna em O GLOBO, aproveitarei para descrever um pouco de Assad, centro das atenções mundiais e a quem conheci pessoalmente nessa entrevista em Damasco em julho de 2010. Era uma época completamente diferente de hoje. Pouco se falava da Síria, que era vista como um oásis de estabilidade perto do vizinho Iraque, destroçado pela guerra. Inclusive, era para a Síria que rumaram mais de um milhão de refugiados iraquianos. E, claro, cerca de 400 mil pessoas mortas na guerra civil iniciada em 2011 ainda estavam vivas. Damasco recebia muitos estudantes europeus e americanos que queriam aprender árabe em uma cidade que nunca era alvo de atentados terroristas.
Assad fala inglês com fluência, apesar do sotaque. Afinal, antes de se transformar em um ditador sanguinário, o líder sírio fez residência em oftalmologia no Reino Unido. Foi em Londres que Bashar, segundo filho de Hafez, conheceu sua mulher, Asma. Nascida na capital britânica e de origem síria, ela estudou Literatura Francesa e Ciências da Computação no King’s College de Londres. Fala francês, árabe, inglês e espanhol, além de ter trabalhado no mercado financeiro em bancos como o J.P. Morgan. Aceita para o MBA em Harvard, decidiu largar tudo para se casar com Bashar e ser a primeira-dama de um homem que anos depois seria acusado de ser responsável pela morte de dezenas ou mesmo centenas de milhares de pessoas, incluindo crianças.
Assad adora futebol. Pelo menos, é o que ele diz. Seu time preferido? Na Síria, talvez seja o Tishreen, que manda seus jogos no estádio “Al-Assad” em Latakia, sua cidade natal, na costa mediterrânea. Mas ele me disse que era seleção brasileira de 1982. Seu maior ídolo no futebol foi Sócrates. “Estudou Medicina, como eu”, me disse Bashar. Sócrates, líder da democracia corintiana, morreu sem saber que era ídolo do líder de uma ditadura acusada de bombardear civis.
Assad, quando chegou ao poder, dizia que seria reformista. Verdade, até trouxe alguns avanços e liberalizações econômicas para a ultraestatizada Síria que herdou de seu pai, Hafez. No campo político, porém, Bashar insistia em dizer que a abertura tinha de ser vagarosa depois da fracassada abertura da Primavera de Damasco em 2001. Talvez tenha sido exageradamente “devagar” e ele não tenha conseguido evitar a Guerra da Síria.
Assad, muitas vezes, é comparado a Michael Corleone. Era mais sofisticado e estudioso do que seus irmãos. Foi criado para ser médico e, talvez, viver em Londres. Seu irmão, Bassel, seria o herdeiro de Hafez al-Assad, o verdadeiro Vito Corleone da Síria. Bassel, porém, morreu num acidente de carro em 1994 — seria, portanto, o Sonny Corleone, também morto antes de ser o poderoso chefão. O irmão mais novo, Maher, era considerado despreparado, como Fredo Corleone. Sobrou, portanto, para Bashar, o Michael Corleone, voltar de Londres e virar o líder da Síria. Foi treinado militarmente e assumiu o poder em 2000, com 34 anos.
Assad não é religioso. Oficialmente, é muçulmano alauita, mas pratica pouco a religião e até costuma ir a missas em busca de apoio de cristãos ao seu regime. Sempre se veste de terno e gravata, de forma ocidentalizada. Não tem nada a ver com ditadores como Muamar Kadafi e Saddam Hussein. Sua mulher, Asma, nunca cobre a cabeça e usa calça jeans e tênis. Parece mesmo uma estudante de MBA de Harvard.
Assad é um sobrevivente. Diziam que a velha guarda da Síria o derrubaria depois de ele chegar ao poder em 2000. Não derrubou. Diziam que Bashar seria o próximo da lista de Bush depois de Saddam em 2003. Não foi. Diziam que Bashar não resistiria à saída da Síria do Líbano em 2005. Resistiu. Por um momento, como na época em que eu o entrevistei, Bashar era recebido por Sarkozy em Paris e jantava com John Kerry e Brad Pitt no célebre restaurante Naranj, na área cristã da cidade velha de Damasco. Em 2011, no entanto, mais uma vez diziam que Bashar iria cair na Primavera Árabe. Não caiu. Bashar, com centenas de milhares de mortos no currículo, segue no poder em Damasco. Aquele altão, nerd, tímido... e ditador.

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