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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Morreu o historiador e crítico português Paulo Varela Gomes

Lisboa - O crítico, historiador de arquitetura e professor universitário Paulo Varela Gomes morreu neste sábado (30), aos 64 anos, em consequência de um câncer. 
Casado, pai de dois filhos, o intelectual e ativista de esquerda publicou os romances  «O Verão de 2012», «Hotel» (Prémio PEN Narrativa 2015) e «Era Uma Vez em Goa», e a coletânea de crónicas «Ouro e Cinza.  O romance "Passos Perdidos" é a sua última obra, publicada este ano.
Militante comunista, Paulo Varela Gomes foi destacado ativista estudantil ainda durante o regime fascista e colonialista em Portugal.
A notícia da morte do historiador foi avançada num artigo assinado por António Guerreiro na edição digital do jornal Público, recordando o texto escrito para a revista Granta no ano passado, e reproduzido em diversas páginas pela Internet, intitulado "Morrer é mais difícil do que parece", no qual Paulo Varela Gomes relata o processo de descoberta do cancro e de consequente vivência com a doença, informa a agência Lusa.
Entre o diagnóstico e o momento da escrita do texto na Granta, Varela Gomes publicou três romances (um dos quais, "Hotel", venceu o prémio PEN Narrativa em 2015), uma coletânea de colunas para jornais e terminou mais um romance e um livro de contos.
Aluno da Faculdade de Letras de Lisboa, onde fez o curso de História, Paulo Varela Gomes foi um militante ativo da UEC – União dos Estudantes Comunistas, o braço estudantil do PCP.
Filho do coronel Varela Gomes, um militar que esteve ligado ao golpe de Beja, em 1961, e que foi um ativo militante anti-fascista, Paulo Varela Gomes militou no PCP até abandonar o partido para fundar o movimento Política XXI, um dos três grupos que estariam na génese do Bloco de Esquerda.
Nos seus escritos, nos últimos anos de vida, Paulo Varela Gomes exorciza a vida e a morte.
"A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga‑me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida", escreveu em "Morrer é mais difícil do que parece", escrito na revista Granta.
"Todavia, não houve um único dia em que não tenha pensado na morte. Nem um. Ao princípio não receei mas também não compreendi essa Senhora de Negro e, portanto, ofereci-lhe de bandeja as inúmeras oportunidades que, demoníaca, busca dentro de nós para nos fazer a vida num inferno ou para nos levar. É verdade que a vontade de viver teve desde sempre mais poder sobre mim do que a desistência perante a morte ou a ida ao seu encontro -- já não estaria aqui se assim não fora", escreveu o crítico.
"Foi muito importante e mesmo muito relevante a ação dele como crítico de arquitetura, depois como historiador de arquitetura, onde tem uma obra notável", afirmou Walter Rossa, professor do Departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais.
Walter Rossa destacou, acima de tudo, aquilo que era a capacidade "extraordinária" de Paulo Varela Gomes de "mobilização das pessoas que o rodeavam, designadamente os alunos, onde deixou marcas em várias gerações", pela energia e pelo "brilhante" raciocínio.
O arquiteto sublinhou a última fase da carreira de Varela Gomes, enquanto escritor de ficção, atividade que manteve até ao fim.
Nascido em 1952, Paulo Varela Gomes licenciou-se em História, fez o mestrado em História da Arte e doutorou-se em História da Arquitetura, tendo sido professor da Universidade de Coimbra, onde deu a última aula em dezembro de 2012 sob o título de "Do sublime em arquitetura".
De acordo com a biografia existente na página do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, onde foi investigador, foi representante da Fundação Oriente em Goa de 1996 a 1998 e, mais tarde, entre 2007 e 2009.
Sobre estas duas passagens pela Índia, Walter Rossa declarou que a "projeção que a Fundação Oriente adquiriu na Índia deve-a ao Paulo Varela Gomes".


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