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sexta-feira, 14 de março de 2014

LITERATURA / Semialfabetizada, Carolina Maria de Jesus vendeu mais de um milhão de livros só no exterior

Pode-se dizer que Carolina Maria de Jesus teve três vidas. A primeira começou provavelmente em 1914, quando se supõe que tenha nascido na cidade de Sacramento, Minas Gerais. A dúvida da data exata é uma amostra do desamparo que durou até 1958, ocasião em que conheceu o jornalista Audálio Dantas, que a ajudou a lançar seu livro mais conhecido, Quarto de despejo: diário de uma favelada, em 1960. A segunda fase durou pouco tempo, até 1964, quando publicou seus últimos escritos, já sem o sucesso almejado. Um longo silêncio motivado pelo contexto da ditadura militar instalada em 1964 tirou-a de cena, para depois, na abertura política, em 1983, permitir seu reaparecimento, não mais como escritora, e sim como personagem polêmica.
Revelando a realidade de uma favela, o livro vendeu mais de um milhão de exemplares e chegou a ser traduzido em quatorze idiomas. Primeira edição de Quarto de Despejo, 1960.
 A primeira fase de Carolina era comum às mulheres miseráveis: negra, migrante, sem qualificação profissional, mãe solteira. A diferença em relação às outras, porém, era que ela tinha planos de se tornar famosa. Semialfabetizada, ironicamente escolheu a literatura como alternativa. Registrando seus dilemas cotidianos em páginas de cadernos que achava nas ruas, suas peripécias nutriram o diário que se tornaria o mais importante escrito popular do Brasil. Anotações feitas quase diariamente, de 1955 em diante, adensado depois de 1958, atestavam o impacto de tradições interioranas na metrópole. Na solidão da luta pessoal, escrevia-se uma crônica vibrante da pobreza urbana vista por quem a sofria em grau extremo. O notável é que, além dos diários, Carolina fazia versos, contos, teatro, e reunia frases que sintetizavam lições.  

Carolina despontou no cenário nacional nas agitações políticas que marcaram os chamados “anos dourados”, iniciados no governo de JK. No quadro da contracultura, cabiam tipos sociais que representassem as contradições nacionais. Nesse conjunto, a experiência de mulher batalhadora que sobrevivia graças ao lixo da cidade valia como argumento de interesse social. Foi assim que Carolina se transformou em representante de temas que empolgavam o debate político da esquerda e da direita.

Audálio Dantas, então repórter da Folha da Noite, conheceu por acaso aquela mulher que seria talhada como rebelde ou, como ela mesma dizia, “língua de fogo”. Indo à extinta favela do Canindé, em São Paulo – onde hoje fica o estádio da Portuguesa de Desportos –, para uma reportagem sobre um parque infantil da prefeitura, encontrou uma algazarra motivada por adultos. Segundo conta Audálio no prefácio de Quarto de despejo, ela se aproximou gritando: “Onde já se viu uma coisa dessas, uns homens grandes tomando brinquedo de criança!

Deixe estar que eu vou botar vocês todos no meu livro!” O jornalista se interessou, foi ao barraco e se surpreendeu com um amontoado de cadernos escritos com letras grandes. Pediu para levar alguns exemplares para casa e se encantou com a leitura.

Sem prestar atenção nos demais gêneros, interessaram-lhe passagens sobre o drama de populações desassistidas. Revelar a intimidade daquilo foi imediato. Juntavam-se, assim, duas intenções: a da catadora de papel que aspirava à fama e o furo jornalístico de um cronista talhado para a tarefa. O resultado foi o espantoso sucesso da publicação, que até agora vendeu mais de um milhão de exemplares e é dos mais conhecidos textos brasileiros publicados no exterior.

Desde logo, Audálio percebeu que Carolina era novidade diante do perfil dos autores consagrados no Brasil. O ambiente de agitação era oportuno, e a catadora de papel seria um contraste perfeito às escritoras brancas, educadas, detentoras da norma culta que estreavam nas letras. Ainda que Rachel de Queiroz e Cecília Meireles já fossem conhecidas, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Nélida Piñon estreavam, vigorando a presença feminina na “boa literatura”. A seu favor, Carolina tinha o fato de usar a favela como cenário e a miséria como matéria do cotidiano. Estratégias de sobrevivência e reações ao comportamento social alimentavam páginas avessas ao papel da ficção elegante, dos livros eruditos, e punham em questão as políticas públicas e os estudos sociológicos.

O sucesso de Quarto de despejo no Brasil foi instantâneo, e várias edições se repetiram. No exterior, chegou a ser traduzido em quatorze línguas, fato inédito até então e raro até hoje. A catadora de papel virava celebridade. O mesmo sucesso, porém, não foi alcançado pelos livros seguintes. Em 1961, a Editora Francisco Alves lançou Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada, que abordava o trajeto de Carolina depois de sair da favela para uma casa de classe média no bairro de Santana, Zona Norte paulistana. Em 1963, a autora publicou por conta própria, com sucesso mínimo, Pedaços da fome e Provérbios.

Para a opinião pública, Carolina era considerada contestadora da ordem. Na lógica dos tempos ditatoriais, seus escritos não serviam ao padrão do novo regime, que no lugar de “insatisfeitos” defendia o modelo de “disciplinados”, coerentes com o suposto de “um país que vai pra frente”. Não bastasse o humor governamental, cresceram reações de críticos insensíveis às mudanças estéticas e velhos defensores da “boa literatura”. Alguns foram inclementes com Carolina. Wilson Martins, por exemplo, chegou a afirmar que ela “queria ser escritora sem saber escrever”, e mais tarde fez críticas repetindo que seus escritos foram fabricados e eram panfletários.

Um dos argumentos polêmicos ecoados pela crítica dizia respeito ao “oportunismo” da obra de estreia. Ainda hoje se discute até que ponto Audálio Dantas interferiu em Quarto de despejo. Com prestígio já garantido quando a encontrou, o cronista paulistano tinha posição de destaque no “novo jornalismo”, e isso o ajudou a conseguir editora importante, a Francisco Alves, para patrocinar o lançamento. Com certeza, não fosse Audálio, Quarto de despejo poderia não ter sido publicado, mas este fato não dispensa a reflexão sobre cortes aplicados ao texto original.

Segundo o jornalista, o critério que orientou a retirada de partes do diário buscou evitar repetições e assim facilitar a leitura. O próprio “descobridor” explicou no prefácio do livro que “a repetição seria inútil. Daí a necessidade de cortar, selecionar as histórias mais interessantes”. Na verdade, a fim de promover uma leitura agradável, Audálio eliminou várias páginas, gerando um livro final brilhante, mas com um filtro nítido, principalmente nos trechos em que a autora manifestava suas contradições e preconceitos contra nordestinos, negros, desempregados. Audálio “inventou” uma Carolina de sucesso, sem dúvida, mas, definitivamente, não legítima.

Ironicamente, sem os cortes não teríamos uma personagem tão linear. Além disso, o “apagamento” do resto de sua obra isolou-a como autora de diário, e não como autora literariamente plural e dona de estética autenticamente popular.

A relação entre Carolina e Audálio não foi das mais fáceis. Segundo Joel Rufino dos Santos, ela o via como “um pai incômodo que lhe vinha cobrar disciplina de uma vida autônoma e difícil”. O próprio Audálio se defendeu no prefácio de Casa de alvenaria: “Diziam-lhe que eu estava querendo ser seu ‘dono’. Ela deixa claro, em muitos registros de seu diário, que acreditou nos conselhos desses amigos de última hora. Por exemplo, quando se queixa por eu ser contrário à sua ideia de cantar no rádio”. Em meio a conflitos com Audálio, infeliz por não se identificar mais nem com o mundo dos pobres e nem com o dos ricos, Carolina tentou prosseguir com sua obra. Mas, sem tutor, não conseguiu. Solitária novamente, reclusa em um sítio próprio, comprado com o que restou de seu sucesso, morreu pobre na periferia de São Paulo em 1977.

No contexto da abertura para a redemocratização, no início dos anos 1980, contudo, deu-se a terceira descoberta de Carolina, motivada pela nova fase política nacional somada à resistência daquela obra no exterior. Em 1982, foi lançado na França o livro Journal de Bitita, que só ganhou uma edição brasileira quatro anos depois, como Diários de Bitita. Teses, artigos e livros sobre Carolina repontam na produção internacional, onde figura como destaque de estudos de gênero, pobreza, urbanização e situação política da América Latina. Em âmbito local, depois de mortes e ressurreições, Carolina volta à cena na celebração dos cinquenta anos de Quarto de despejo. O legado da escritora negra, catadora de papel, mulher incompreendida no cenário crítico geral, convida a pensar que, além do que se conhece, existe muito mais a ser revelado. Carolina escreveu obsessivamente durante toda a vida. E mais que diários. Em 37 cadernos, perfazendo mais de cinco mil páginas – com microfilmes à disposição do público na Biblioteca Nacional e com um caderno na Coleção Guita Mindlin em São Paulo –, abre-se a possibilidade para que se dimensione o conhecimento de uma obra original, única e capaz de iluminar novos caminhos para a consideração da literatura nacional.

Escritos inéditos da época em que Carolina vivia na favela revelam muito da personalidade da autora [ver “Carolina sem cortes” na página...]. No pequeno conto “Porque Deus não ajuda os pobres” e em alguns provérbios, nota-se a combinação que ela fazia da escrita “errada” com o conteúdo poético ilustrado. Enquanto repetia vícios da linguagem oral, usava palavras da norma culta que aprendera lendo clássicos brasileiros e portugueses.  

Percebe-se, ainda, sua audácia e atrevimento: “sou mulher e não tenho saco e para não ficar quieta escrevo”. Ainda que às vezes se utilize de julgamentos ambíguos, como nas críticas aos favelados – “a favela é o depósito dos incultos que não sabem contar nem o dinheiro da esmola” ou “a favela é tétrica e o recanto dos vencidos” –, ela representa a opinião sobre a pobreza de quem a vive: “quem inventou a fome são os que comem”. Sua concepção de riqueza e de pobreza está expressa na moral das tramas e na ética dos ditos populares. Seus textos – baseados nas repetições de histórias tradicionais e em ensinamentos religiosos – devem ser vistos como expressões de vida que vêm da influência de parábolas e provérbios bíblicos.

José Carlos Sebe Bom Meihy é professor da Universidade de São Paulo e coautor de Cinderela Negra: a saga de Carolina Maria de Jesus (Editora da UFRJ, 1994) e de Meu estranho diário (Editora Xamã, 1996). 


Saiba Mais - Bibliografia

JESUS, C. M. de. . Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Livraria Francisco Alves (Editora Paulo de Azevedo Ltda), 1960.

JESUS, C. M. de. (s/data). Provérbios. São Paulo: s/editora.

RUFINO DOS SANTOS, Joel. Carolina Maria de Jesus: uma escritora improvável. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2009.
LAJOLO, Marisa. A leitora no quarto dos fundos. Leitura: teoria. 14 (25): 1018, jun. 1995.

MARTINS, Wilson. “Mistificação literária”. In: Jornal do Brasil, 23 de outubro de 1993, p. 4.

VOGT, C. “Trabalho, pobreza e trabalho intelectual”. In: R. Schwarz (ed.), Os pobres na literatura brasileira. São Paulo: Brasiliense,1983.

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