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sábado, 4 de janeiro de 2014

LITERATURA / Quando W. H. Auden disputou a final do Nobel da Literatura

Há 50 anos, em 1963, a Academia Sueca atribuía pela primeira vez o Nobel da Literatura a um autor grego, o poeta, ensaísta e tradutor Giorgos Seferis (1900-1971). Com a divulgação das actas das reuniões do Comité do Nobel da Academia Sueca relativas a esse prémio de 1963, ficou-se agora a saber que a decisão foi rápida e quase unânime.
Um consenso que não deixa de surpreender, tendo em conta os dois candidatos de peso que Seferis bateu na final: o chileno Pablo Neruda (1904-1973), que viria a ganhar o Nobel em 1971, e o poeta anglo-americano W. H. Auden (1907-1973), uma das ausências mais escandalosas da lista de laureados.
A documentação interna do Prémio Nobel da Literatura vai sendo libertada pela Academia Sueca à medida que se esgota o período de reserva de 50 anos, durante o qual as actas das reuniões não podem ser consultadas. A recente divulgação das discussões que levaram à escolha de Giorgos Seferis em 1963 confirma que os critérios do Comité do Nobel nem sempre são exclusivamente literários. A adesão ao ideal comunista prejudicou claramente Neruda em 1963, o dramaturgo e ficcionista irlandês Samuel Beckett (1906-1989), que ainda chegou a uma short list de seis nomes, era demasiado “nihilista”, e o autor do romance “imoral” Lolita, Vladimir Nabokov, nem sequer descolou do pelotão.
Os três finalistas de 1963 – Seferis, Neruda e Auden – eram todos essencialmente poetas, o que pode ter ficado a dever-se ao facto de o Nobel da Literatura de 1961 e 1962 ter sido atribuído a romancistas, respectivamente o jugoslavo Ivo Andric (1892-1975), autor de A Ponte sobre o Drina, e o americano John Steinbeck (1902-1968).
Dos 80 nomeados ao prémio de 1963, o Comité do Nobel – um grupo restrito anualmente encarregado de escolher o Nobel da Literatura, cujo nome é depois votado por todos os 18 membros da Academia Sueca – começou por escolher seis escritores. Além dos já referidos finalistas e de Beckett, a triagem incluía o japonês Yukio Mishima (1925-1970) e o dinamarquês Aksel Sandemose (1899-1965), um romancista muito prolífico, mas que nunca teve grande notoriedade fora da Escandinávia e está hoje bastante esquecido.
Entre os que não atingiram sequer a short list há nomes absolutamente incontornáveis da literatura do século XX, como o já referido Nabokov ou o argentino Jorge Luis Borges, um candidato crónico, mas também curiosidades, como o general e estadista francês Charles de Gaulle, que não conseguiu repetir o feito alcançado dez anos antes por Winston Churchill, que fora prémio Nobel da Literatura em 1953. A lista de nomeados incluía ainda a poetisa judia alemã Nelly Sachs, que escapara ao nazismo refugiando-se justamente em Estocolmo. Sachs viria a receber o Nobel em 1966, ex aequocom outro escritor judeu, Shmuel Yosef Agnon.
O argumento moral
Nas instruções que deixou em testamento, Alfred Nobel recomendava que o prémio consagrasse “a pessoa que tiver produzido, no campo da literatura, a obra que mais se destaque numa direcção ideal”. Uma formulação que causou controvérsia, já que parece querer impor uma exigência de idealismo aos escritores candidatos ao prémio. E em 1963, a frase voltou a ser invocada, designadamente para afastar Beckett. Anders Österling, que era secretário da Academia desde 1941 – abandonaria a função no ano seguinte – argumentou, rezam as actas, que lhe parecia discutível que a obra do irlandês correspondesse “às intenções idealistas do Prémio Nobel da Literatura”.
Uma objecção que não terá sido consensual, já que no comunicado em que a Academia Sueca resume os bastidores da escolha de 1963 se afirma que “todos os membros do Comité propuseram unanimemente Giorgos Seferis”, mas com a reserva de um membro, que defendeu “uma valorização mais positiva da obra” de Beckett.  
Como se imagina, o conservadorismo político de Mishima também não terá propriamente jogado a seu favor, embora os membros do Comité do Nobel se tenham limitado a argumentar, segundo os documentos agora divulgados, que o autor de O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar e de Templo Douradonão se destacava suficientemente dos restantes candidatos japoneses.
Já Pablo Neruda teve de esperar mais oito anos para ganhar o Nobel, já que, em 1963, Österling não lhe perdoou os elogios expressos a Estaline. Segundo os jornais suecos que consultaram os documentos agora libertados – e acrescentaram detalhes que não aparecem no resumo elaborado pela Academia Sueca –, Österling terá sido invulgarmente claro nas suas objecções a vários candidatos, que considerava não estarem à altura das “intenções morais” do prémio.
Era o caso de Beckett, que considerou negativista, nihilista e depressivo, defendendo que a sua ficção e o seu teatro ofereciam “o menor estímulo possível” aos “ameaçados tempos” que o mundo então vivia. Numa alusão irónica ao teatro do absurdo beckettiano, Österling fez saber aos seus colegas do Comité do Nobel: “Sou incapaz de lhe dar o meu apoio e quase consideraria que a atribuição de um prémio Nobel a Beckett seria, ela própria, um absurdo”.  
W. H. Auden, um poeta inglês que veio a naturalizar-se cidadão americano, e cujo reconhecimento crítico não tem cessado de crescer, parece ter sido, pois, o verdadeiro rival de Seferis. E não é de excluir que o facto de escrever numa língua já muitas vezes premiada, e que voltara a sê-lo no ano anterior, com a escolha de Steinbeck, tenha reduzido as suas hipóteses de vitória. Como Österling salientou, a opção por Seferis oferecia à Academia a oportunidade de “prestar um belo tributo à moderna Hellas”, que “esperava há demasiado tempo” por um Nobel da Literatura.
Há que dizer que Giorgos Seferis já várias vezes fora indicado para o Nobel da Literatura, designadamente por T. S. Eliot, cuja poesia traduzira para grego. Mas em 1963 ficou a dever a nomeação ao escritor sueco Eyvind Johnson, que elogiou a sua “escrita eminentemente lírica, inspirada num sentimento profundo pelo mundo helénico e a sua cultura”. Johnson viria, ele próprio, a ganhar o Nobel da Literatura em 1974, a meias com o também sueco Harry Martinson, naquela que foi uma das mais polémicas escolhas da Academia Sueca.
Juntamente com Odisseas Elytis (1911-1996), que se tornaria em 1979 o segundo grego a receber o Nobel da Literatura, Seferis é um dos nomes centrais da poesia grega moderna posterior a Konstantínos Kaváfis (1863-1933), um dos autores que mais o influenciou, a par de T. S. Eliot e Ezra Pound. Também tradutor e ensaísta, Seferis conciliou a escrita com uma longa carreira de diplomata. E já depois de receber o Nobel, quando o chamado regime dos coronéis tomou o poder na Grécia, em 1967, assumiu frontalmente a sua oposição à ditadura. O seu funeral, no dia 20 de Setembro de 1971, foi seguido por uma vasta multidão, que cantava o seu poema Negação, musicado por Theodorakis e banido pelo regime.

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